C., 45 anos

C. é agricultora e tecelã, passa cadilho, as filhas prifilam, o marido e o filho tecem no tear elétrico. Ela aprendeu no tear manual, mas hoje o que sustenta a casa é o tear elétrico e as mãos da família. O marido vende na feira, ela tem loja em casa, onde conversou conosco, passando cadilho nas redes.

 

Por Luiza Maretto

“Vai reto, vira quadra, lembra dessa esquina aqui e… pronto. Ali é a casa de C.” – vamos caminhando até lá. Na parte da frente da casa tem sua loja, vendendo as redes pequenas e grandes, os tapetes, as mantas. Em Caraibeiras, “todo mundo é de porta aberta”, segundo ela. E, assim, ela abre as portas da casa pra contar da vida, do trabalho, da família. Está quase todo mundo ali, vivendo e trabalhando juntos: a filha pequena, a maior trazendo o bebê recém chegado; o marido e o filho trabalhando no fundo da casa. Os teares elétricos e a máquina de urdir fio ficam lá atrás. O som alto. E mais rede por todo o canto.

Na entrada da casa onde estamos, C. senta no tear e passa cadilho enquanto conversa, porque o serviço não pode parar. “A senhora vai contando o número de linhas passadas enquanto faz?”, “Não, só de olhar eu sei o tamanho”. “Hmmm”. O som da madeira, os sons da sua história. Ficamos em volta. Assim, olhando, dá até vontade de aprender a tecer. Passa um carro, chega gente querendo comprar. Chega também o pai dela, brincando.

E, assim, urdindo, e, assim, tecendo. Noutro dia, quando é de noite, ainda passamos por lá, pra conversar mais um pouco sobre qualquer coisa que atravessa a vida.

Antes de ir embora da cidade, buzinamos na frente da casa pra nos despedir!

 

Narrativa

Minha infância lá era só trabalhar de roça

Nasci no Olho D’Água do Bruno, no sítio.

Bom, minha infância lá era só trabalhar de roça. Eu trabalhava de roça. Aí, a gente plantava nesse tempo, plantava feijão, agora não porque agora é difícil chover, né? Choveu agora graças a deus que todo mundo vai ter esse ano, mas no tempo que eu morava lá tinha muito legume, a gente plantava feijão, plantava abóbora, melancia, era mandioca, essas coisa. Agora é difícil prou plantar.

Eu fui criada com meus pais. Tenho dois (irmãos). Uma irmã mulher e um irmão homem.

Eu vim pra cá, eu tinha treze anos

Aí quando eu vim pra cá eu tinha treze anos. Meus pais vinheram simbora praqui eu vim também. Aí, me criei praticamente aqui porque eu vim de lá com treze anos, né?

Porque aqui tinha mais facilidade pras coisa. Aqui era ruim de… comé que diz? era ruim pra pessoa vim na feira, a pessoa vinha de pé e é longe. As pessoas quando vem de Recife passa lá. Era bem lonjão. E a gente vinha pra feira, era um sacrifício. E aqui não, é melhor pra trabalho.

Era dia de sexta-feira que a gente vinha, madrugada a gente vinha de pé. Agora não que agora tem muito carro, agora o povo já tem carro, mas antigamente não tinha. Antigamente era diferente, agora melhorou tudo. Graças a Deus agora tá bom.

Quando a gente veio pra cá, nó não ia ficar com casa lá e tudo. Nós vendemo e compremo uma aqui.

Do tempo dos mais antigo

A fazer isso daqui? Ah, isso aqui é derno do tempo dos mais antigo. Que é assim, vai vai.. a gente vai aprendendo né? Vê um fazendo aí a pessoa vai aprendendo, né? Os outro mais véio vão morrendo e vai ficando os mais novos, né? Aí a gente vai aprendendo.

Minha mãe nunca fez, minha mãe não sabe fazer nada de rede. Aí, eu já aprendi já aqui (em Caraibeiras) mode o meu marido, porque lá eu só trabalhava de roça. Aí, aqui ele já fazia esse serviço. Aí quando eu cheguei aqui eu comecei a trabalhar e eu aprendi com ele. Só que aqui nós ainda nem namorava. Aí, eu fui aprendendo aprendendo até… graças a Deus agora eu aprendi e sei.

Esses manual mesmo que é de pau, nem tem mais. Tenho agora só elétrico.

Porque a de pau dá mais trabalho pra fazer as redes e o elétrico não, o elétrico é mais ligeiro, né? Tem mais facilidade. O de pau não, é muito sacrifício. Esses de pau é muito… é poucos que tem muito difícil. Só por os sítio que tem… aqui é pouco.

Agora aqui a rede é quase manual… E o punho também, a gente bota… é um pau faz uma coisa bem assim que é o empunhador, aí empunha a rede, é toda manual quase a rede.

Depois eu ensinei meus filhos

(o marido) aprendeu com os pais dele. Ele já era daqui mesmo.

Aí depois eu ensinei meus filhos, aí todos eles sabem. Aqui é só nós que trabalha, aqui não tem gente de fora trabalhando não. Aqui é nós mesmo. Eu, meu marido, meu filho, essa menina aqui (mostra a filha) trabalha num desses ali, e a que é casada que mora lá em cima prifila.

A minha mais velha faz isso aqui ó (mostra o prifilo na rede). Que é pra rede ficar mais segura. Aí, a gente vende pra fora e vende na feira também.

Meu marido (que vende). Eu não vou por causo que aqui tmabém eu tenho muito serviço. Aí aqui ele aqui ele só faz tecer, né? E sempre a mulher trabalha mais do que o homem, né? Aí aqui eu cuido de casa, cuido de comida, que ele vai pra feira e o outro menino fica, o rapaz fica aqui trabalhando, aí eu tenho que cuidar de comida, né? Aí ele vai pra feira.

Porque o homem só faz trabalhar uma coisa e a mulher é pra lavar prato, pra barrer casa, cuidar de menino, aí, num trabalha mais do que o homem? eu acho que sim.

Se o menino tá doente, o marido tá deitado dormindo e a mulher vai cuidar da criança doente, não é verdade? então. Aí que eu acho que a mulher trabalha mais do que o homem.

Essas máquina vem de fora

Essas máquina vem de fora e a gente compra aqui. Aí, ele (o marido) foi trabalhando, aí Deus ajudou que ele comprou a primeira máquina, aí, foi vendendo as redes, tecendo as redes, tapetes, aí depois comprou outra  e hoje graças a Deus nós tem… deixa eu ver, 5 tear, 5 máquina. Aí.. deu tudo certo.

Esse daqui (o tear de cadil) não, esse daqui faz na serraria, um desses aqui é 350,00 de cadil. Aí a gente manda fazer nas serraria eles faz. Agora já vem com tudo, sabe? Só não vem os fios. Os fios a gente tem que comprar as linha pra encher. Aí eles mesmo enche. Aqui é tear. Eu mesmo chamo tear de cadil, e já outros chama mamucabo, só eu não chamo, eu chama teazinho tear de cadil.

A pessoa vê uma rede assim ó, pensa que não dá trabalho

Eu acordo cinco horas, primeiro faço um café, depois vou escovar os dente e tudo, depois venho trabalhar. Depois quando der umas nove horas eu largo, vou cuidar da comida, vou lavar os pratos e volto pra cá. Aí, daqui eu só paro umas cinco hora, é o dia todinho trabalhando. É uma luta pra trabalhar. A pessoa vê uma rede assim ó, pensa que não dá trabalho. Uma rede por trinta reais… inté de vinte e oito eu vendo. Aí o povo acha que uma rede, o povo passa e vê uma rede assim e pensa que uma rede é fácil de fazer, mas não é não. Dá muito trabalho. Só que tem pessoas que de fora que reconhece o trabalho da gente. A pessoa dá o valor, o preço, nem pechincha, já outro fica pechinchando. Não sabe o valor que tem o trabalho da gente.

Mulher, eu acho que é pouco (o lucro), porque um quilo de fio a 9,50, aí ó a gente vai, que aqui o pessoal não compra por quilo, só que é assim um saco com seis bobino, aí pesa, sabe? aí é um quilo só é 9,50. Só que a gente tece a rede, a gente faz a varanda, a varanda gasta muito fio, faz cordão, também com muito fio aí e a pessoa ainda ainda não dá venção sabe? eu pago a minha menina pra prifilar que é esse negócio aí, né? aí eu acho que só vai pouca coisa pra gente. É porque a gente não quer ficar parado, num sabe? Não gosta de ficar parado, mas num num.. é porque o serviço da gente é esse a gente tem o costume de trabalhar nesse serviço. Mas, não tanto lucro assim não.

Tem o fio da rede, aí a pessoa ainda paga energia, pra tecer as redes, né? (a conta de energia) Vem alta. Vem cem, cento e cinquenta reais, e é assim. Aqui falta (energia) Qualquer chuvinha aqui chover em qualquer boniteza já falta.

Eu dou muito valor pro meu trabalho

Eu dou muito valor pro meu trabalho, é tanto que eu não… dizem que em São Paulo é bom, mas eu não troco meu lugar por São Paulo. Por lugar nenhum. Não tenho coragem de sair. Oxe, Deus me defenda de eu sair daqui pra ir pra outro lugar. Prefiro meu lugar e meu serviço.

Uma rede dessa daqui, é porque a gente trabalha pra nos mesmo, sabe? Mas só pra fazer isso (no tear de cadil) o povo paga pras pessoas aprontar, sabe? A pessoa pra fazer isso daqui (mostra o cadil) é os dois lados um real, pra fazer, só isso.

Eu me impaio muito eu passo (cadil) em dez, quinze redes. Tem gente que passa de trinta rede. Se fizer trinta dessa daqui no dia já ganha trinta reais. E aqui é um lugar que todo mundo trabalha. Os outros lugar tem malandro, né? Tem ladrão. Aqui não graças a Deus ninguém não vê.

A pessoa que dizer que aqui passa fome é porque não tem coragem de trabalhar

Aqui um tece, o outro faz isso,outro dá nó de tapete, aqui não tem, se tiver algum mendigo é que vem de fora, mas aqui graças a Deus que todo mundo trabalha, quem não trabalha aqui é porque é preguiçoso. Mas aqui é um lugar que chama terra da rede. é um lugar que dá mais trabalho. Tem um povo que tem aqui e é tudo de fora, que nem Tacaratu, Tacaratu é um lugar pequeno e é bem estreitinho e aqui é um lugar grande. Aqui era pra ser a cidade e aqui já é o município, aqui era pra ter o banco e não é lá. Em Tacaratu não, o emprego de lá é prefeitura e essas coisa assim sabe? E aqui não, é só artesanato. Graça a Deus todo mundo ganha dinheiro, ninguém anda pedindo esmola.

A pessoa que dizer que aqui passa fome é porque não tem coragem de trabalhar porque é preguiçoso.

Lá em Tacaratu não é todo mundo de porta fechada? E aqui não, é todo mundo com as portas abertas, porque graça a Deus aqui não tem coisa errada. Aqui você pode dormir na calçada que não acontece nada… Já em outro canto… Aqui é um lugar abençoado pra tudo. A única coisa que aqui é ruim é pra médico. Se o caba cair numa doença só Deus.

Por causa que aqui o povo só trabalha com isso, só trabalha com rede, com tapete e bolsa, é a renda da gente é esse, do artesanato, aí é por isso que chamam “Terra da Rede”.

Ó, começou dos mais velho, começou dos Francilinos, desses já morreram sabe? Aí foi as outras pessoas foram aprendendo aprendendo até que… todo mundo aprendeu. Era uma família. Aí quem começou foi eles a trabalhar nisso, sabe? Aí depois eles foram morrendo, as pessoas foram aprendendo, aí todo mundo aprendeu, aí todo mundo agora vévi disso.

A varanda eu pago pra elas fazer (as filhas). Eu não dou venção fazer tudo porque uma rede tem muito serviço. Aí eu não dou venção a fazer tudo isso. Ele (o marido) vende lá, eu vendo aqui.

Aí pra tecer uma rede demora

Eu, nesse tempo, eu fazia, mas pouca, que era nesses tear de pau, que é duas urdindo, você já viu? Se você for pos sítio você ainda vai ver, é um que é urdindo, é duas pessoas. E é quatro espremedeira.

Aí pra tecer uma rede demora tem gente que tece uma rede no dia, duas rede no dia, porque dá trabalho, ainda vai encher canela, aí é duas que é com uma lançadeira, aí nesse tempo eu teci mas era pouquinho. Por isso que eu lhe digo, porque era pouquinho e agora não. No elétrico é dá mais produção. Aí por isso que o povo só quer mais tear elétrico.

Era da minha família mesmo (o que ela aprendeu), que chama tear de pau, tear manual.

Só que nestes daqui eu não sabia ainda não. Nesse tempo os cadil era um frangerinho bem miudinho, a pessoa sentava no chão e passava os cadil. A pessoa passava uma duas no dia. Aí foi numa de inventar esses tear nas serraria. Aí aqui (mostra o tear de cadil dela) a pessoa passa tem gente que passa até de trinta rede.

Ah, esse de agora é melhor, é é…

Esse da máquina é elétrico, uma urdideira elétrica, aí, ele quando secão rolo ele vai e bota os fios aí vai enchendo, é elétrico. (Não mexe na máquina) Porque nem eu não sei e eu tenho medo eu só sei nesses aqui. Agora minha menina aqui ela sabe tecer no elétrico. É por causo que eu botei ela pra passar os cadil porque só me ajudar. Aí eu pago a elas, sabe porque no lugar delas trabalhar pras outra pessoas elas trabalham pra mim, né?

É agricultor e tecelã

Só tive vontade de trabalhar com isso. Eu acho que elas tinha vontade de trabalhar com outras coisa, mas eu não tem condição, né? Porque assim, porque é mais diferente. Porque que como é que elas vão assim arrumar pra elas botar um negócio pra elas. O maridos delas eles trabalha com roça.

Aí é assim é agricultor e tecelã, né?

E nós botemo roça também, mas o terreno não é nosso. Aí o rapaz deu o terreno e aí faz assim, nós planta aí o pasto fica pro dono da roça, né? A gente pega o feijão, o milho, só que assim as paia e os pasto fica pro dono do cercado, da roça.

Gostava não (trabalhar na roça). Só é bom assim quando é de bater o feijão que é bem animado, bem muita gente, aí eu gosto, mas assim… eu não gosto nada. A pessoa arranca os feijão, porque é de arranca os carioca, a pessoa arranca o feijão seco, aí a pessoa faz um terreiro… assim, alimpa um monte de mato, sabe? Fica assim que nem ali (aponta pra rua). A pessoa espalha o feijão, aí depois se ajunta meio mundo de gente faz aquela rumona de feijão aí vai bater com o pau. É animado. Porque é bom, tem milho maduro, aí é bom né?

Pra falar minha verdade

Mulher, pra falar minha verdade, eu não tenho engano assim com nada. Eu merma arrumando pra mim, me sustentar e a minha família pra mim tá bom? Eu não sou assim dessas pessoas gananciosa, sabe? O que vale é a pessoa arrumar pra sobreviver. Eu não sou dessas pessoas que sonha alto não, né?

Graça a Deus eu sou uma boa mãe, se eu pudesse faria tudo por eles. Quando eles sentem qualquer coisa eu fico doidinha, muito preocupada. Cuido deles e é assim…

Ave Maria, se eu pudesse eles não triscava a mão neles. (falando dos netos) E soubi educar meus filho, graça a Deus meus filhos nunca gostaram de andar no meio da rua…

Bater eu não batia não. Eles nunca tiveram uma queixa deu, nem deu nem do pai deles de triscar a mão deles. A minha mais velha tem 22 anos. Graça a Deus nunca levou um tapa.

Graça a Deus nóis (ela e o marido) vévi bem, nós não anda brigano. Eu não faço por onde da gente brigar, ele também não. Ele tá pra lá trabalhando no serviço dele e eu tô aqui. Aí nós não anda brigano não. 25 anos (casados).

Na feira, eu digo o seguinte

Na feira, eu digo o seguinte, tem pessoas que não dá valor ao serviço da gente. Eles mesmo é que botam o serviço da gente pra trás. Tem gente que chega na feira, ta vendo o tanto de serviço  que dá, que trabalha. Nessas rede nós tudinho aqui vende de trinta reais, 28 30. Aí chega uns  na feira porque… ói, aqui não tem fio diferente, do lugar que eu comprei esse fio é todo mundo que compra mesmo. Porque sabe que é assim, esses fios vem de santa catarina, só que eles traz, os ricos, sabe? traz de Santa Catarina e a gente compra a eles o quilo de fio por 9,50. Ai a gente vai fazer a rede, né? Você veja tece a rede, gasta energia, faz daquele monte de coisa. E o trabalho que dá pra um dá pra todos. Aí eles pegam e vão pra feira vender de graça. Vende uma rede dessa daqui inté por 22 reais. Aí estraga o trabalho da gente né? Aí quem vai deixar de… Meu marido vende por 27,00 lá na feira. Mas quem vai deixar de comprar. Só que a rede deles é menor, só que o comprador quem vem de fora não sabe, né? Aí vai deixar de comprar uma rede por 22 reais pra comprar uma por 27, né? Aí eles faz isso pra prejudicar o outro e não tão dando valor ao trabalho deles.

E é tão bom dormir de rede

Nós só trabalha pra nós mesmo, não trabalha pra cooperativa nem pra grupo, não.

E é tão bom dormir de rede. Os menino meu nunca gostaram de cama não é só de rede. Pelejo pros menino dormir de cama e eles não quer e essa outra (mais nova) não gosta não. Gosta de rede. Nem que a muriçoca coma.

Essas rede de bebê eu que inventei. Eu fiz a primeira vez pra vê se dava certo e deu certo. Quando e fiz eles já era grande. Ta com cinco anos que eu inventei. Essas aqui só é eu.