L., 47 anos

Por Luiza Maretto

Uma cerca de pau. Um bode deitado na cerca. Um terreiro bem limpo depois da cerca, a casa ao fundo. O som do sino do bode. Sua casa é entrando e as portas e janelas tem o vermelho vivo que ela escolheu pintar. Um tear de pau. Um vento presente, um sol alto e forte. A horta de sua família em volta da casa. Plantam e colhem. Comem o que plantam e trocam com os vizinhos, trabalho por feijão. Varrem com três tipos de ferramenta o terreiro, três vezes, ou mais.

Seu segundo encontro é o primeiro agendado de todas as mulheres. Ela não tem telefone, marcamos pessoalmente então. L. escuta a que viemos e depois diz seus questionamentos. Proteção do que é seu. E então, escutamos suas histórias com compromisso, cuidado e silêncio. Silêncio e respeito de dentro. “Aqui nos Olhos d’água nós gosta de criar”. Criam planta, bicho, família, cor, rede, sonhos…

A história conta que, de um casal fugido procurando água pra beber, encontraram a fonte dos olhos d’água desse sítio. Ficou alimentando de água o povo por um bom tempo. E uma senhora, antigamente, urdia fio direto do algodão plantado.

Hoje, ali, o pau de angico faz a cerca e o instrumento pra urdir o fio. E comemos melancia e goiaba verde do seu quintal.

Narrativa

Naquele tempo nascia era em casa

(Nasci) no Sítio Olho D’Água. Era outra casa mais velha que meu pai tinha. Depois até do riacho. Naquele tempo nascia era em casa. A parteira era daqui do Olho D’Água mesmo. Desuíta. As mulher daqui era tudo com ela. As minhas tia, aí depois dela surgiu outra chamada Madalena. Tenho dois (irmãos). Mãe só teve eu de mulher. Três homens, um morreu com cinco anos aí tem os outros dois. Moram em São Paulo.

Bom, a minha infância era que eu vivia a pé mais pai, mais meus irmão. Só que era muito sofrido aqui, a gente trabalhava, hoje em dia tem… A gente plantava legume, tem a máquina de plantar legume, naquele tempo era tudo no pé.

Plantando assim ou mais pai e mãe e os momentos que eu passei mais eles tudo era os momento feliz assim, uns momento bom.

Meu pai e minha mãe me ensinou a plantar o milho e o feijão. Semente e até hoje eu vivo da roça aprendi com ele.

Eu gostava de Arte

Estudei até o ensino médio. Era na Maria Gomes (escola). Terminei lá os estudos, tá com dois anos, agora em dezembro vai fazer três (anos) que eu me formei.

Era difícil (faltar aula), às vezes que eu tava doente, se eu não tivesse doente eu ia. Eu só não faço faculdade porque eu não tenho dinheiro mas se eu pudesse bem que eu fazia. Mulher, é tanta coisa… Eu queria fazer pra eu ser professor, zeladeira, essas duas coisa, que é a mais fácil, né? Pra outras coisa é muito caro. Essas aí é mais simples.

Eu gostava de Arte e tem outra que eu não lembro agora, essas duas.

Fazia assim desenho, desenhava as coisa, nós tirava pra nós fazer e nós pegava, a gente pegava uns papel, nesse instante mesmo eu peguei um caderno dele que a gente fazia.

Eu gostava assim, é muito boa a escola de arte, a matéria. As meninas trazia as coisa e nós pintava pano de prato, pintava uns tapetinhos, uns tapete que nós levava.

Uma tecedeira que tava com mãe ela me ensinou a urdir

Com oito anos, eu era muito novinha. Na hora que eu ia urdir mãe botava um coisa assim como se fosse um bicho desse aqui solto (aponta pra uma madeira). Mãe botava aqui no chão pra eu poder chegar aqui no liço. Aí nessa época eu só urdia, mãe tecia só, mais ou menos uns cinco mês eu já comecei tecer.

Aí orde a rede, aí eu jogo a lançadeira com essa mão e com essa e trocando.  Faz com uma e com duas (pessoas), só que eu uso com uma, que só é eu (hoje em dia).

Aí quando eu tecia mais minha mãe aí era eu e ela. Ela joga desse lado e eu jogo desse. Usa duas espremedeira aqui e duas dessas. O que fica mudando chama espremedeira.

Uma tecedeira que tava com mãe ela me ensinou a urdir, aí, quando eu aprendi, essa menina saiu daqui e eu comecei mais minha mãe.

Nós ia trabalhar na roça, quando chegava em casa ainda urdir uma rede

Naquele tempo, ninguém era aposentado. Meu pai e minha mãe não era aposentado, aí nós era assim: só naqueles momento que nós ia pra roça, tinha vez que nós ia trabalhar na roça, quando chegava em casa ainda urdir uma rede, tinha vez que nós ainda ia tecia, tinha vez que nós tecia e tinha vez que nós só urdia. Aí, quando era o outro dia nós ia pra roça de novo e só naquelas horinha que nós tecia igual hoje.

Naquele tempo, nós vivia da roça e trabalhava no tear porque a gente não gostava de ficar parado. Vamo supor, a gente chegava de meio-dia o sol tinindo em ponto de queimar nós, aí naquela hora que era muito sol, nóis não aguentava trabalhar no sol, bom, os homens trabalham, mas só que a mulher já é diferente dos homens. Aí nóis ia aproveitava e tecia, nós ia pro tear tecer. Mas só que os homem era direto na roça. Aí o nosso tecido é assim. E hoje não, eu teço no dia que eu quero. Mas era assim, a gente só tinha o legume de ano em ano.

Nós tamo com seis anos de seca aqui

Nós tamo com seis anos de seca aqui, aí nós trabalhava no tear pra sobreviver, pra comprar alguma coisa. Ajudar, nós cheguemo a comprar água a cento e cinquenta reais que a prefeitura, o ipa teve um intervalo aí parou, sabe, um dia aí. Aí, a gente comprava pra sobreviver um carro d’água por cento e cinquenta reais.

Aí era muito seco, não tinha nada da roça, aí a gente teve de viver de tear comprando as coisas assim pra vender de alguma rede pra gente sobreviver porque o salário só não dá.

Imagina, mulher, se um homem vai tecer a rede que nós tece? Tece não!

Não, os meus (filhos) eu nunca botei, são homens, sabe? Bom a não ser que seja dos de Caraibeiras (os elétricos). Esse aí disse que quando terminar os estudos vai. Eu sei que eu não posso pagar uma faculdade pra eles. Aí, eu digo, vou mandar eles trabalhar pra juntar um dinheirinho pra depois eles  quem sabe lá Deus vai mostrar um meio que eu possa pagar uma faculdade pra ele, mas nesse daí (no tear de pau)  eles não aprenderam não, nem encher uma canela eles não sabe.

Na roça eles ajudam o pai. O pai cavando e eles plantando.

É assim porque esses menino homem eles só aprenderam quando abriram a tecelagem em Caraibeiras muitos foram ensinando uns aos outros,mas aqui no tear manual magina, eles vão urdir? Nós urdindo ali no tear é diferente como o de Caraibeira. Eles não querem aprender. Porque nesse daqui vai subir na espremedeira e joga a lançadeira eles não querem. Já o de Caraibeira, nos de Caraibeira eles só ficam aqui (parado), o tear tá tecendo o negócio lá é a força é energia. Eles só ficam aqui prestando a atenção quando acabar a espula pra trocar.

O de lá é mais fácil, imagina, mulher, se um homem vai tecer a rede que nós tece? Tece não! (Lá em Caraibeiras) só é tudo homem. As mulher ou fazendo as outras coisas, porque tipo assim, elas fica amarrando tapete, amarrando rede, passando o cadil. Elas pegam essa profissão aí, já os home é que vão tecer (nas máquinas).

Mulher, aqui eu faço tanta coisa

Mora eu, meus três filhos e meu marido. Adepois da manhã nós tá fazendo dezoito ano, nós casemo dia 31.07, aí todo ano eu nunca esqueço da data. Ás vezes eu comemoro faço um bolo. Nós se conhecemo num forró, era ali perto da casa.

Mulher, aqui eu faço tanta coisa. Eu lavo a louça, varro a casa, apanho maxixe pra botar na panela, assim fazer as coisa em casa. Eu ainda não tenho feijão não, aí de vez em quando vou panhar na casa dos vizinho, feijão verde.

Agora mesmo eu teço muito pouco, aqui o que nós planta mesmo

É muito feijão assim na roça e eles não dão venção em apanhar aí eles ficam chamando (os vizinhos). Eu sempre só vou mais no sábado e no domingo, eu tô só mais L. (o marido) e ou então no dia que eu posso eu teço assim uma rede.

Aqui e acolá no dia que eu tenho tempo. Agora mesmo eu teço muito pouco que é assim a gente apanhando os feijão, ajudando uns aos outro. Hoje não, dia de sábado pro domingo ninguém trabalha de tear. Dia domingo assim,arruma a casa, pra roça panhar feijão.

Aqui o que nós planta mesmo é, milho, feijão de arranca e de corda e abóbora, melancia, no tempo da chuva, quando chove, coentro. Tomate essas coisa assim a gente não planta, que aí só na agoação.

Quando a gente planta que a gente colhe muito a gente vende um pouquinho,mas quando é pouco a gente só dá pra comer, a gente guarda.

De primeiro tinha tanto comprador

De primeiro tinha tanto comprador, agora só tem uma mulher que vende ali e um rapaz de Caraibeira. Nesse tempo eles vinha comprar aqui. Às vezes quando me viam pelos canto encomendava, dizia “olhe, eu quero tantas rede”, aí a gente já tecia sabendo.

Quando minha mãe era viva, a gente tecia, tinha cinco (comprador) aqui que a gente só era entregar rede, trocar rede, dava dinheiro e ele viajava pra fora com as rede, já morreram tudo, quer dizer, três, dois (compradores) ainda vive mas não trabalha mais com rede não. Hoje tá ruim de vender. Eu só teço rede (não faz tapete).

Eu fico tão feliz nos dois

Eu gosto de fazer mamocado, que no caso é naquele flangelo ali, que fica passando cadil. Eu também gosto de urdir, prefilar, também eu gosto.

Eu fico tão feliz nos dois. É bom quando a gente tem feijão na roça pra gente panhar, ave Maria!, a gente ir pra roça panhar maxixe, abóbora, ave Maria é muito bom. Uma roça bonita, assim cheia de legume de feijão, milho, é muito bom, é muito bonito, eu adoro os dois.

A bisavó dela foi quem inventaro

É assim… no caso, já era a bisavó de mãe, minha vó, minha vó também já tecia, a bisavó dela foi quem inventaro. Aí, tinha o carpiteiro que fazia os tear, aí, quando tiveram a ideia delas tecer, que inventaram essa produção, aí elas tiveram a ideia.

Bom, o que minha mãe contava era que tinha uma mulher ali, aí quando ela se casou que no caso essa mulher aí era a bisavó do meu pai, quando ela casou ela fiava. Ela tinha aqueles algodão, a gente pegava aqueles algodão que vinha lá do pé e aí elas começaram fiar fio.

Aí elas faziam, enfiavam aquele negócio num pau chamado fuso, aí elas fiavam o fio e faziam aquele novelo, umas bola desse tamanho. Aí acho que elas diziam: “bom vou inventar alguma coisa pra eu tecer uma rede” aí, se gerou dessa mulher, de tecer uma rede com esse fio. Disse que o marido dela era carpinteiro e ele inventou um tear pra ela, agora eu não sei nonde ela viu.

Aí todo mundo surgiu os tear, começaram pagar ele pra ele fazer e todo mundo ficou gostando do tear. Aí, nessa época aí surgiu um vendendor vendendo fio, aí por aí vai até hoje…

De primeiro nesse tempo a gente tinturava o fio, o fio vinha branco, vinha cru. Aí vinha as tinta pra tinturar, hoje em dia vende toda cor que o povo queira é tudo tinturado já.

Sempre foi rede, agora que inventaram o tapete, quando surgiram o tear de Caraibeiras.

A gente não faz zuada que a gente tece com espaço, é espaçoso assim o espaço  e lá é muito corrido, é a força

Ave Maria, quando eu chego lá eu fico doidinha pra vim mimbora. Eu não aguento ali, ó por isso que eu digo “eu não moro ali” já por aquilo, eu não aguento, fico doidinha lá quando eu chego na casa de uma cunhada minha, ave Maria, eu sempre fico lá pra cozinha lá, mas perto dos tear eu não fico um segundo, já por isso daí aquelas zoada é muito forte (do tear elétrico em Caraibeiras).

E aqui não o barulho é devagarzinho. A gente não faz zuada que a gente tece com espaço, é espaçoso assim o espaço  e lá é muito corrido, é a força. Por isso aquela zoada.

Encomenda a rede pra mim pra eu tecer pra casa

Não, o valor, os compradores sempre falam que é melhor mesmo, ele prefire mais por que a nossa que nós faz é mais melhor. Aqui tem gente mesmo que encomenda a rede pra mim pra eu tecer pra casa, que não querem delas que é muito mal feita. Nós tapa rede aqui de quatro pé, de lá é de dois.

Lá eu não sei como é que sai aquelas rede lá porque o pano é bem mole e o tecido a gente vê do urdir a gente pensa que é de dois fio. Aí a gente pensa que eu não sei como é que tece com esses fio singelo. Não sei entender aquilo não, sei que pra tapar é com dois fio lá, já aqui nóis é de quatro, quatro perna singela.

E lá pra urdir lá tem umas roca.. uns negócio lá que enche o rolo, já não é urdindo que nem nós.

A gente tece, mulher e trabalha na roça, mas é um serviço muito pesado

Assim se eu pudesse, eu tinha um cargo assim como se fosse uma zeladeira, trabalha na escola como uma professora. Assim porque a gente tece, mulher e trabalha na roça, mas é um serviço muito pesado. A gente fica assim abaixada apanhando feijão até dez, onze horas no máximo que nóis sai da roça. Aí, é do mesmo jeito de tecer uma rede, fica o dia todinho pra lá e pra cá, aí tem o cadil tem o prefilo e fazer o cordão, que a gente faz de acolá até a casa da minha tia aqui embaixo. Aí é subindo e descendo, subindo e descendo um fica lá em cima acochando o cordão, meu marido fica lá e eu fico cá, aí ela ele cocha, cocha, cocha, quando tá acochadinho tem que juntar três pernas. A gente vai e junta quando ajunta é que forma o cordão, pra empunhar a rede. Aí se eu arrumasse outro emprego melhor bem que era bom, nera?

Ah, eu ensinei a muita gente

Ah, eu ensinei a muita gente (a tecer), essas tecedera veio cinco que desceu mais eu, fui eu que ensinei. Trabalhando assim do jeito que mãe me botou lá no tear. Elas vieram com oito, dez anos mais ou menos, elas vieram e eu fui quem ensinei e elas aprenderam comigo.

Não (gosta de ensinar). Umas vez elas levava os fio direito, outra vez eu tinha  mode eu ensinar, às vez o modelo da rede elas ficava se batendo e eu tinha que ir lá por mode eu botar, home, era muito ruim. Depois pra elas pegarem a prática com dois três dias, no instante elas aprenderam também.

Dança Tebei

Aprendi com meus pais, os mais velhos de primeiro, no caso. Quando minha mãe namorava com meu pai era nesse tempo, não tinha casa de tijolo, tinha de taipa. Os homens casava aí armava as casa como se fosse essa casinha minha aí, aí eles tapava de vara as casa, ia pro mato tirava as varas aí tapava a casa, aí naquela tapação que eles botavam o barro mode tapar a casa, aí eles ajuntavam muito homem e era muita mulher pra tapar casa naquele dia. Era as mulher botando água, botando água nos pote carregando dos açude e aí, por aí era uma coisa muito… eles cantando Toada, aqueles que sabia cantar Toada, meu pais mesmo era duns que cantava, e ajuntava aqueles montão de mulher e de homem aí tapava a casa e de noite arrumava os Tebei, tinha as Feitosa que elas ficaram famosas no Tebei aí, por aí vai, daí que depois surgiram as casa de tijolo, mas quando era casa de taipa era assim, aí de noite, minha filha, era Tebei de manhecer o dia.

Hoje em dia a gente dança pro pessoal de longe vê. Pra olhar aquela tradição.

Dia de sábado sempre eu vou pra igreja. Sempre a gente dança Tebei, e no São João eu danço quadrilha.