Neném, 49 anos

Neném enche o tapete com pontos únicos e especiais. Faz isso para sua parceira que é associada à ASTALC. Não faz o desenho contado e não é associada. Escolheu conversar conosco no sítio de parentes em Lagoa do Carro, enquanto trabalhava passando roupa.

Por Luiza Maretto

Desde o primeiro encontro, ela está (pre)enchendo tapete, com seu próprio ponto florzinha, junto com a parceira de trabalho, que desenha. Outras tapeceiras também estão juntas e Neném sai falando e falando. Depois, marcamos uma conversa só com ela. Desmarca uma vez, quer em outro momento. Marcamos para outro dia, vamos até sua casa, mas ela não está. Ligamos e ela está em um sítio, trabalhando. Diz para irmos até lá então. E vamos. Seguindo pela estrada de terra a sua procura, as indicações por telefone são: da rodovia, entra para o sítio, tem uma casa pequena ao fundo de um portal, daí sobe na estrada, vira à esquerda, e por aí vamos, seguindo…. Marcando o local de chegada, um menino nos busca de bicicleta. “Pronto, chegamos ao sítio.”, “ E não é que viemos?” Pois é, queremos escutar mais, a história de Neném nos importa bastante. O tempo do passo de cada uma, importa. Passo e tempo e ponto de flor.

Bom, ela precisa continuar trabalhando, mesmo conversando com a gente. Diz que responde ao que souber! Pois sobre a agulha dos outros ela não sabe dizer, mas sobre como cuidar da dela, sabe sim. Neném lembra mesmo é do que sabe fazer. E segue fazendo, com cuidado, em seu próprio tempo, pra acabar seu serviço da casa do sítio. De dentro, está ali, pra o que precisar do tempo pra fazer. Assim, nos arrumamos em volta da mesa cheia de roupas pra passar, com gravador e papel, pra escutar. E, assim, ela vai contando do tapete, da casa, do que pensa, do que sonha, e ensina palavras diferentes…além disso, não quer câmera pra fotografar. Podemos ver de muitas outras maneiras diferentes.

Depois da nossa conversa, o menino da bicicleta, morador do sítio, nos leva para conhecer a casa da coruja da terra, com porta de entrada para um horizonte bonito e largo. No fundo da casa, uma plantação grande e saímos de lá com sacolas cheias de limões e acerolas, além da promessa de conhecer a agulha especial de encher tapetes de Neném!

Narrativa

Minha fia, era na enxada mesmo

Meus pais moravam em Lagoa de Taenga, lá no Sítio Quatis. Eu nasci em Carpina, aí, eu acho que naquela época era mais Recife e Carpina. Lagoa do Carro não existia, não era desse tamanho não.

Depois que minha mãe morreu, não de parto, depois que ela teve outra menina, eu sou a terceira, né? aí, depois de mim, ela engravidou, depois que ela descansou ,ela morreu em Recife, eu tava com 3 anos. Aí, eu fiquei morando com meus avós. Aí ficou os três netos morando com o avô lá no sítio.

Minha fia, era na enxada mesmo, criando gado, era na ração. A gente saia do sítio ia pra barragem de bicicleta buscar/ panhar ração. Depois que meu avô morreu foi que a gente, vamo dizer, teve sossego de sítio, né? Mas o corre corre da vida continuou. Minha irmã mora no Recife, aí eu vim morar aqui mais minha vó, e fiquemo nessa, né? Eu acredito que há 25 anos, depois que meu avô morreu, a gente ficou sozinha eu e minha vó no sítio. Aí a minha tia trouxe (pra Lagoa do Carro). Eu moro naquela casa pequena (por traz da casa de sua tia em Lagoa do Carro), me escondo ali mais minha filha. Ela cedeu aquela casa pra eu e minha vó morar.

Minha vó morreu eu tive uma menina, Heloísa, ela tá com 19. Eu botei ela uns tempos na casa da minha sobrinha no Recife. Ela só tá passando um tempo, porque ela ta fazendo Jovem Aprendiz, ela foi pra casa da minha sobrinha, aí ela conseguiu, fez um curso lá. Mas quando ela terminar ela quer vir simbora. Tá de agonia que ela passa muito tempo nervosa, muito apegada a mim.

Eu me lembro muito pouco da minha infância. Acho que eu nunca tive um sonho não,vi? Naquele tempo tinha tempo de pensar não. Era somente pra limpar capim mesmo e limpar roça, fazer farinha. Lá no sítio minha vida era essa, né? Na época que eu morava no sítio.

Eu estudei lá no sitio, comecei lá no sítio. Como na época no sítio não tinha quinta série, aí, eu pra Lagoa de Taenga não fui, que tinha que ir de bicicleta e parece que era a noite, eu não lembro, aí eu parei os estudos. Eu acho que passei mais de 10 anos sem estudar. Ai, depois que eu cheguei na rua, que eu vim terminar meus estudos à noite. Aí, eu me animei e terminei meus estudos graças à Deus. Quer dizer, terminei mas não serve pra nada porque emprego que é bom…

Quando você quer aí você aprende

Aí, depois eu não lembro o tempo que eu comecei a fazer tapete, não. Eu não lembro porque eu acho que não foi logo assim que eu cheguei, não lembro. Minha tia era quem fazia tapete aí eu comecei a aprender com ela.

Quando eu comecei, eu nunca me interessei em desenhar. Porque tem o desenho, né? Tem o desenho e tem o enchimento. Eu chamo enchimento, né? que é pra encher. Eu nunca me interessei não, mesmo. Minha tia pegava não lembro mais com quem, sei que minha tia pegava mais as vizinha, sentava no terraço e era a noite todinha até onze horas, onze e meia, aí eu comecei. Sentava na roda e ia fazer também. Minha menina parece que também aprendeu… ela só deve ter esquecido porque ela não teve interesse mais, é Heloísa.

É fácil, é só prestar a atenção, né? Porque tem gente que tem a prática, pega rápido a prática, né? E, no caso eu acho que eu tinha, eu queria aprender, aí quando você quer aí você aprende. Eu acho que eu aprendi rápido que eu me lembre…

Você trabalha mais com uma pessoa do que com outra

A gente ia buscar o tapete e a linha e quando terminava o tapete a gente tinha que cortar aquele pelo que ficava por baixo pra não fazer o volume, a gente cortava, botava numa bolsinha e amarrava, porque pra quando chegasse lá ia pesar o tapete pra ver se tinha aquela quantidade de linha no tapete.

Porque tinha gente que tirava a linha, vi? Já fazia isso porque ela deve ter levado gongo de alguém, né? Porque pra você pesar a linha você já sabe porque tá fazendo.

Léa (amiga pra quem trabalha) me dava linha que sobrava duas ou três peça, aí eu devolvia. Eu acho que pode ter sido por simpatia, né? Que você trabalha mais com uma pessoa do que com outra.

É que cada uma fazia pra si, rapaz, e a diferença é que… quer dizer não é diferença, né? Pesar a linha ou não pesar não é diferença, né? Não sei… Porque Léa confiava nas meninas que dava a linha, ou eram pessoas diferentes…

Nas calçada fazendo tapete

Lagoa do Carro, mulher, era muita gente fazendo tapete. A gente via era os rapaz na praça, nas calçada fazendo tapete, com as mães, com as irmãs.

Quando era pra terminar ela ia me ajudar, aí dizia assim ” Ó, Neném eu quero esse tapete pra tal dia” . Aí às vezes ela passava semanas indo me ajudar, quando eu não descia com o tapete pra casa dela, a noite na calçada, na calçada de casa a gente botava a cadeira, ficava eu e ela fazendo até dez horas, dez e meia da noite, ela ia fazer, às vezes ela fazia no meu o que ela tinha… Às vezes era encomenda e ela tinha dado um prazo aí ela tinha que me ajudar pra terminar logo. Oxe, aquele tempo era bom demais que a gente podia fazer nas calçadas. Hoje em dia se a gente for fazer o cara vem leva tapete e tudo.

Campo liso

Sem tapete é muito ruim, minha gente. Um negocinho pra fazer é muito bom. Campo liso é assim, o desenho é aqui, né?! Aí isso aqui tudinho tem que ser preenchido, tá entendendo? Aí a gente chama de campo liso. Ela dizia que por causa dos meus pontos, que é aquele ponto florzinha. Aí, quando eu terminava um, ela dizia: “Quando tu terminar um…” Aí eu digo: “Ó, eu não tenho tempo de terminar não. Eu tenho tempo de terminar que é quando eu terminar, ninguém marque e diga assim “Olha eu tenho um tapete pra tal dia…” nem diga por que eu não sou… tanto faz eu tá fazendo quanto passar um dia, dois sem fazer.

Aí eu era assim… Mas quando eu terminava um eu sempre já tinha outro esperando. Às vezes as meninas tava desenhando eu dizia: Ô, Léa, guarda aquele dali pra mim” Aí ela deixava, quando eu terminava o meu aí eu pegava o outro pra fazer. Era bom demais até uma época, ô meu deus, era um tempo bom. Era muito cansativo.

Esse campos liso, eu não gosto de tapete cheio de desenho não. É mais rápido, tem gente que diz que é mais rápido, pra encher, porque se tem menos espaço eu vou terminar mais rápido né? Mas eu não gosto, eu gosto de tapete do campo liso.

Até por baixo o ponto fica bonito, o ponto que eu faço

Não, o meu ponto não é diferente, desde que você tenha paciência de fazer na mesma posição que eu faço, tá entendo? É uma questão de posição pro ponto ficar todo florzinha, porque quem faz de todo jeito não fazer “virando pra lá, virando pra cá” pra fazer. Léa mesmo ela dificilmente ela faz, se você vê ela fazendo tapete pode prestar a atenção que você vê as doidice dela, joga lá a agulha de todo jeito desde que dê o ponto, desde que cruze o ponto, agora pra ficar florzinha duvido! Fica não, menina. O meu ele tanto fica em cima como fica embaixo.

Até por baixo o ponto fica bonito, o ponto que eu faço. Agora assim… as meninas diz que eu faço contando os pontos, que eu faço devagar, mas é um devagar que sai ligeiro, benza-te deus, eu digo assim porque eu não sei fazer nada ligeiro. Tudo meu é devagar, tais percebendo, né?

É só eu porque eu tenho essa mania de organização. Às vezes eu tenho mania de organização. Se o ponto ficar feio eu desmancho. Oa, às vezes as meninas queriam chegar lá em casa pra me ajudar a fazer tapete eu preferia que não me ajudasse porque o ponto é diferente, ia ficar diferente.

Aquela minha agulha é especial

Ah, foi minha agulha, eu sem aquela agulha acho que eu não faço tapete mais não, menina, eu faço nada. Aquela minha agulha é especial, eu acho que foi desde o começo que eu arrumei aquela agulha, virgem maria do céu! É um amor naquela agulha que eu tenho. Eu deixar ela numa casa pra eu ir tapete pra voltar amanhã? deixo não. Eu saio com ela na mão mas eu não deixo no tapete. Se todo mundo disser assim: “o tapete vai ficar aqui e só pega amanhã” é ruim de eu deixar!

Porque a agulha ela é mais fina, as outras são mais grossas.É porque tem ela grande e ela pequena, tá entendendo? Aí essa minha eu afinei a ponta dela. Elas não tem totalmente uma ponta bem feita, elas  são muito mal feitas, eu digo que elas são mal feitas, por que mesmo que seja pra fazer tapete eu digo que eu acho mal feita. Não sei não…

A minha eu ajeitei a ponta dela pra ficar melhor, pra terminar a linha. O acabamento da linha por baixo eu não faço por baixo, de cima mesmo eu faço por baixo o rematamento da linha. Com aquelas rombuda eu acho que eu não conseguia não. Eu digo que ela é rombuda.

É lá, eu tenho uma tigela assim que foi do casamento da minha mãe ou foi da minha vó. Essas louça antiga, aí tá lá, eu boto dentro. Quando eu passo muito tempo sem fazer ela enferruja, aí eu pego um bombril e passo o bombril nela, fica bem lisinha.

Sem trabalho a gente não vive

Eu sou muito ruim pra essas coisas, eu sou muito ruim pra essas definições aí que existem no mundo. Sem trabalho a gente não vive. Sem ter o trabalho pra conseguir as coisas, as outras coisas, primeiro vem o trabalho, né? tá certa a resposta?

É muito ruim tá dentro de casa sem fazer nada… eu queria muito assim, eu sempre pensei assim: passar a semana no Recife e só chegar em casa no fim de semana, mas eu não consigo, por conta do sistema nervoso que eu tenho. Dá logo um fastio em mim eu não como.

Sem tapete é muito ruim, minha gente. Um negocinho pra fazer é muito bom.

Agora mesmo eu tô pensando em aprender a fazer cesta… aquelas cesta que o povo faz com aquele material. Tô pensando em fazer aquilo ali. Qua aqui em Lagoa do Carro tem, né? Tem umas menias que faz, vi. E eu vou aprender a fazer aquelas cesta. Vou dizer a Léa: “Oa, vou correr do tapete”.