R., 50 anos

Por Luiza Maretto

R. sabe entrar e sabe sair. No tempo de sua infância era isso que ensinavam. Sua casa fica na cidade, mas o local de seu trabalho, onde estão os seus dois teares manuais, tem galo cantando de galo, e passarinho também. A filha mais nova mostra, ali mesmo, onde tem muita flor, e mato que também é flor, e depois fica brincando perto, enquanto conversamos.

R. conta da sua vida de antes, da sua vida em outras terras, da sua vida de agora. Da roça, da rede. E vai urdindo fio, de um lado a outro, preparando pra tecer. Ensina tudo, todos os passos. E apresenta cada parte do tecer. Aquele tear é de pau, mas tem o passador diferente. O nó, por exemplo, diferencia o manual e o elétrico, tem sabedoria pra diferenciar. E os fios estão em todo canto do quintal, em volta do tear, no chão.

Uma chuva suave nos acompanha. Embaixo do teto que abriga seu tear, nos aconchegamos. O galo ainda aparece pedindo pra R. o proteger de outro galo invasor. “Quem nasceu na roça não tem medo de sol, nem de chuva, nós enfrenta tudo. Sol é bom, chuva é melhor”.

Saímos com uma sacola de milho cozido, amarelinho e doce, pra o almoço. Nos despedimos assim, R. é a última mulher que escutamos histórias nessa nossa caminhada.

Narrativa

A gente fazia do maxixe, da melancia fazia os bichinhos pra brincar

Eu nasci em Tacaratu, no hospital de Tacaratu mesmo.

Eu morava no sítio Pitombeira. É uma roça como se fosse o Olho D’Água só que lá tem duas três quatro casas só. É que o nome do lugar é o sítio, mas não é o sítio mesmo. É um sítio que não tem fruta, não tem nada, só árvore mesmo.

(Infância) Ah, foi boa. Não tinha brinquedos mas a gente fazia do maxixe, da melancia fazia os bichinhos pra brincar, e trabalhava mais na roça mesmo. Foi mais na roça. A gente andava né? mais meu pai. A minha infância mesmo foi andando mais ele na roça. Andando a cavalo, limpando mato, levando os bichos pra beber água, essas coisas mesmo.

Tenho seis irmão. Sou a mais velha. Antigamente não tinha brinquedo pra brincar não. Brincava com os bichos da roça mesmo. Pequena, eu com 10 anos eu fazia tudo de roça. Desde pequena eu ia pra roça com meu pai, com uns 4 anos de idade eu já ia com ele. Mamãe também ia mas ia menos.

Esse terreno aqui (em Caraibeiras) a gente já tinha ele desde que a gente morava lá na roça. A gente vinha montada no cavalo aqui tinha um cercado que a gente deixava o animal. Aí fiquemo até hoje, mas todo dia nós vai pra roça.

Eu gostava (de estudar), mas pra falar a verdade eu gostava era de tá era na roça

(Hoje) Existe a mesma casa (onde foi criada). Eles fazem a casa lá com ferro, eles juntam dois tijolos juntos um do outro, fala “dobrada” pra poder não fazer coluna. Tem cinquenta ano a casa e não tem uma rachadura. A telha que foi usada com cinquenta ano tá a mesma telha e a madeira, tá do mesmo jeito.

Eu gostava (de estudar). Mas pra falar a verdade eu gostava era de tá era na roça. Da roça eu gostava de tudo, de arrancar o mato, de plantar, de trabalhar punherando terra, eu ia pra cima das mata cortava lenha com machado tudo. Eu montava no cavalo e ia dar água aos gado, tudo que o home faz eu fazia com dez anos.  Minha mãe deixava, ela confiava, Deus toma conta e vai… Se uma criança for fazer o que eu fazia, que nem dizem, ia pro conselho.

Eu andava no cavalo duas horas da manhã, três horas da manhã, não tinha medo de nada e nem meus pais tinha. É que naquele tempo não existia esses negoço de ladrão, de ninguém fazer mal a ninguém não, era tão bom. Dormia com as portas abertas, ia voltava e não acontecia nada, mas hoje não dá mais, hoje tá tudo diferente.

(Hoje em dia) A gente vai de manhã (pro sítio), vem meio-dia pra casa e depois volta novamente (pra Caraibeiras).  Hoje mudou, né? a gente vai pra roça de moto, né? Tem animal, mas hoje eu não monto mais. Só lá na roça mesmo que a gente anda (a cavalo), eu gosto. Ah, eu corria de cavalo por todo canto. Agora como tem muita seca não tem nem como ter água lá pra dar aos bichos, Então a gente vendeu porque não tinha de que vender os bichos. Tinha que comprar água, tinha que comprar ração pra eles, aí não dava, né? aí, deixou de criar.

A minha vó ela tinha um teazinho

Bem, eu aprendi (a tecer) com a minha mãe mesmo. A minha vó ela tinha um teazinho daqueles de canela, né? Aí eu gostava de ir pra casa dela aí ela botou a espremedeira assim, esses pauzinho (mostra a espremedeira) do lado e doutro pra ir me ensinando. Aí eu jogava o fio quebrava… aí ela com toda paciência aí me ensinava de novo.  (o tear) Não existe mais.

Tem poucos tear de canela. Aqui em Caraibeira não tem nenhum. Mas nos sítio tem.

Aí ela já aprendeu com a vó dela e com a tia dela. Que era mais velha do que a mãe dela.

Eu aprendi bem dizer olhando. Porque tem serviço que você aprende mais olhando e não alguém ensinando. Minhas meninas mesmo aprenderam a fazer as varanda olhando. Elas sabem fazer é tudo, tecer fazer varanda, tudo que vocês imaginar elas sabem, e aprendeu só olhando.

Eu não canso fazendo rede nem indo pra roça não. A coluna só dói quando você pega peso. Aí dói. Mas fazendo isso aqui (rede), não dói.Já na roça, já dói mais porque você se abaixa muito né?

O pêlo dá alergia, porque esse fio cru ele tem o cheiro forte né? Então agora já dá alergia. Tem vezes que eu tô aqui urdindo e eu saio porque não guento o pêlo que vem dele lá do vizinho (onde tem teares elétricos). Só que pra usar a máscara eu não gosto, eu fico agoniada. Fica sem jeito, viu, de cuidar. Se tá com muito pêlo tem que sair um pouco dali. Tem que tá passando pano, varrendo. Por mim eu durmo aqui, em cima dos pêlos… não tenho nada. Uma rede aí eu deito e durmo, não ligo não.

O sol é bom, a chuva é melhor

Porque quem nasce na roça não tem medo de enfrentar sol, ou chuva, qualquer coisa não. O sol é bom, a chuva é melhor.

Olhe, pra fazer cordão ali eu começava quatro da manhã ia até às vezes da noite direto. Quanto mais a gente fazer é que dá vontade de fazer. Às vezes eu tô ali sentada e tem um homem que passa e disse: “nunca te vi sentada”.

Todos (da família) sabem (fazer rede) só que não gostam, não. Eles trabalham muito mas não ganha quase nada. (A filha) foi pra São Paulo, ela terminou os estudos dela e isso aqui não dá quase nada a ninguém. Você não passa fome, mas também num tem as coisa, né? Aí ela foi trabalhar e estudar lá.

Em São Paulo

Eu fazia tapete e vendia na rua (em São Paulo). O tapete que nóis fazia lá era um tapete de tira. Onde a gente comprava as malha na malharia aí fazia.

Dois filhos nasceram lá. (Voltamos) porque J. (o marido) não quis ficar lá. Ele tinha um problema de asma que é muito frio, né? Aí eu fui pra lá com eles. Ficar com cinco crianças, né, não dava.

Vendia tapete, vendia alho na rua. E eu inventei de vender doce, comprava doce e salgadinho e vendia. Vendia pão, vendia leite. La no mercado comprava e revendia em casa.

Eu sei que tem muitos lugar aí que faz (rede), só que eu não sei dizer o nome dos lugares. Na Paraíba eles fazem rede, né? Só que lá eles fazem o pano e cortam ele, não tem o cadil da rede aí eles vão dobrar a rede na costura e aí eles vão fazer o punho da rede. Eles fura o tecido e depois bota o cordão. Eu já vi muita gente fazendo em São Paulo desse jeito.

Aqui só dá um pano só

Tear de máquina é bom pra quem trabalha muito, né? Que dá produção, aí é bom, agora pa quem tem pouco fio pra trabalhar tem que ser no teazinho pequeno mesmo.Eu só tenho uma bobina de fio, então eu só vou tecer uma rede. Aí se você já tem dez bobino você já pode botar no tear elétrico e já vai dar dez redes.

Nunca deu vontade (trabalhar no elétrico). Em tear elétrico, se você quer um pano de rede melhor você faz melhor, se você quiser ruim você faz ruim e aqui (no tear manual) só dá um pano só. Agora lá dá vários tipos… Mais batido e mais fino no elétrico. Já aqui não, aqui sai a mesma pancada. Que lá eles trocam uma pecinha do tear elétrico aí já dá outro pano.

Ah, pra vender a gente vende pra qualquer pessoa que chegar interessado. Assim cooperado, todo mês vem um pedido de cem redes aí divide as cem redes pra os vinte e seis cooperados. Vende devagarzinho, mas vende (na cooperativa).

O tear fica mais pesado nesse tempo

O tear fica mais pesado nesse tempo (de chuva), mas quando você começa a movimentar aí ele fica bom. Aí compra queroseno, aí passa aqui no pente, passa na queixa, aqui nessas pecinha que fica mais leve. É como uma máquina você tem que tá limpando as máquinas, né? Senão limpar trava e não funciona, então assim é o tear.

Esse aqui tá com 15 anos que eu tenho ele. Aqui tem um marceneiro, tem dois senhor que faz isso, tem Genivaldo Lira, Chico Lira que sabe fazer.Eles tão em são paulo pra dançar o Tebei.

Ah, quando eu quero inventar

Ah, quando eu quero inventar eu derramo aí os sacos de fio aí no chão e vou… pega uma listra amarela, uma  laranja, outra de outra cor e assim vai… A gente vai usando os fios e vai fazendo o modelo… Eu pego a trena, né? A gente mede o tamanho dos quadros aí vai fazendo.

A gente pra criar as coisa eu já sei do que é que o povo gosta eu já vou fazendo o que eles gosta. Mas a cor que pede mais, sabe qual é? é a vermelha e marrom.

Eu deitava na rede quando eu tava grávida

Gosto, só durmo mais de rede. Quando ganhei (a filha) eu dormi os nove mês de rede. Ela só dorme do jeito que ela dorme agora  é o jeito que eu deitava na rede quando eu tava grávida dela.

Sabia que dormir de rede… se você dorme de cama sua coluna dói, às vezes dói, e de rede não dói. Só não é bom no frio, né? ai no frio não dá não.

As redes que eu tenho (em casa) não foi eu que fiz. Eu paguei pra fazer. Aqui na casa de mamãe tem os tear elétrico a gente bota e ele tece.

Tem gente que dá valor a manual, mas tem gente que acha que é as mesmas coisa. Não liga não. Quer saber se a rede é grande, é boa o pano e pronto. Mas tem umas que cisma, menina, e só que se for manual, se não for não querem.

Eu dou, eu gosto mais da manual do que da outra. Se eu fosse comprar eu comprava a manual.

Ter rede pra fazer ou roça pra ir

Primeiro a gente limpa roça, né? os mato. Aí depois cê cisca, depois faz uma coivara, aí queima, aí depois ara a terra, aí depois planta o feijão. Aí depois vai limpar novamente antes dele florar.Aí depois limpa, ele flora, aí depois você vai esperar ele madurecer, aí secar, aí depois vai colher ele pra bater ele pra guardar no vaso. Tem muita etapa.

O tempo de plantar é agora no mês de abril, né? na primeira chuva, aí já planta até o dia 5 de junho é dia de plantar, aí passou não planta mais. Muda de região pra região. Bem, onde tem agoação todo tempo que plantar dá. Já tem cada lugar que tem seu tempo de plantar.

Esse ano teve (milho) porque choveu, mas se plantar e não chover, aí nada feito. O ano passado mesmo não deu nada.Ninguém quer criar mais gado nem bicho nenhum mais não que só vai… o bichinho só faz sofrer.

Rede

Eu acho importante eu fazer, eu trabalhando pra mim tá bom. Nem de pegar em dinheiro eu gosto. Agora eu fazendo é que é importante pra mim, todo dia. Eu gosto todo dia ter rede pra fazer ou roça pra ir, mas não importa se eu vou ganhar pouco ou muito não.. isso aí não… nem que eu ganhe um real pra mim tá bom. Eu me contento com tudo. É minha sobrevivência, né? é o meu trabalho.

Roça rede

Sobreviver da roça é muito sofrimento, né? Mas a pessoa acostuma. Da rede é melhor sobreviver da roça, é mais fácil. Porque na roça você vai pra roça cê faz o serviço ali você não precisa de muita gente. Já aqui (tecendo rede) tem muita coisa pra fazer. O ruim da roça é que não é todo tempo que você tira legume, né? só quando chove e desse aqui você tem todo dia a diferença de um pra outro né? E outras coisas que eu não sei explicar. A gente sabe das coisas mas não sabe explicar, sabe?

O meu pai tudo que ele deixou foi da roça. Foi. Ele comprou terra, fez casa, comprou esse terreno aqui com o dinheiro da roça. Nós tem um terreno grande ali, que ele plantou o ano e deu dinheiro pra comprar.

A pessoa que tem um tear desse só é pra comer mesmo, e olha lá… se não tecer todo dia não come direito não. Isso aqui é só uma gambiarra.

Ao mesmo tempo é bonito fazer isso. Esse negócio de crochê é uma coisa tão trabalhosa, né? E quando vai vender é barato. Mas você também não pode pagar muito por aquela peça. Tem coisa que… é complicado.  Tem coisa que você faz porque gosta, não é porque ganha muito não, é porque gosta de fazer.

O lugar também não oferece muitas coisas também, né? 

O lugar também não oferece muitas coisas também, né? Eu gosto de Caraibeiras, e gosto de São Paulo e gosto de qualquer lugar que eu for morar eu acho que eu gosto.

Bem aqui é mais sossegado. Você mora aqui não tem muita violência aqui e você conhece todo mundo. Me acostumei. (O barulho do tear elétrico) Não, não incomoda. Pra mim, não.

Aqui não todas casa mas uma sim e uma não tem um tear pra tecer. Quem não tem mais desse tem um elétrico e quem não tem nem elétrico nem esse manda pras pessoas tecer.

Pra mim do jeito que eu vou vivendo aqui tá bom

Sonho todo mundo tem, agora eu dizer “quero isso ainda antes deu morrer” ou “quero enricar” não.  Eu já me acostumei aqui e pra mim do jeito que eu vou vivendo aqui tá bom.

Eu tando com saúde pra mim tá importante.

Nós trabalha e ganha pouco, mas quem só vive trabalhando não gasta muito, tem as coisas também. Só que hoje se você tiver um estudo e um emprego é melhor do que tá sofrendo, né?