T., 57 anos

T. faz desenho contado, inventa e colore padrões de tapetes, também enche se precisar. Aprendeu ainda menina. É associada a ASTALC – Associação de Tapeceiras de Lagoa do Carro, e escolheu conversar conosco por lá.

Por Luíza Maretto

– “Sabe o que é pesquisa, T.?”

Vamos falando, quando ela diz:

– “A pessoa saí descobrindo várias coisas, sabendo quem você é, quem você não é…”

Assim, por princípio, vamos sendo bem ensinadas por ela.

No primeiro encontro com T. os nossos olhos e ouvidos ficam atentos: suas invenções e seus estudos estão expressos em seus tapetes, em seus desenhos, em sua fala. T. descreve naturalmente seu processo de criação. Mostra, abre trabalho feito, conta. Cotidiano, aprendizado no corpo, de cair e refazer parede. Respeito.

Convidada, depois de refletir, T. escolhe gravar a narrativa na própria Associação, onde a conhecemos, não em sua casa. Explica com detalhes bem direitinho o porquê. E compreendemos. Ainda na cidade, explica para quem pergunta o que é nossa pesquisa, e o nosso processo.

T. conta ponto e como fazer. Cada detalhe do pensamento, cada estudo, cada reflexão do fazer, o próprio fazer. Abre seu tapete na sala de exposição para nos mostrar. Ele é grande. Ela na ponta, segurando firme, apresenta seu trabalho. No centro da cidade, outra criação sua, percorre todo o chão do altar da Igreja.

Já no início da noite, ao final da conversa, tomamos o café com biscoitos preparado por T.

– “E aí, doeu?”, perguntamos.

– “O café?”, ela diz.

– “ A conversa…” – e damos risadas.

Narrativa

A casa que eu nasci, eu moro hoje

Eu nasci aqui em Lagoa do Carro, a casa que eu nasci, eu moro hoje. 57 anos, é pouquinha vida? Não dá pra conhecer quem é quem e quem não é na minha rua? Eu conheci essa Lagoa do Carro deste tamainho ó. A minha mãe teve sete filhos, morreram dois ela criou cinco depois ela adotou um. Agora somos seis. Eu moro com meu pai, era com meus pais mas minha mãe já morreu, né?

Eu fiquei com meu pai e meu irmão, os dois mais velhos ficaram com os pais. Os outros filhos todos já casaram e tem suas casas, fiquemos com meu pai. Todos moram por aqui. Eu sou a mais velha da família.

A minha infância foi pau duro

A minha infância foi pau duro, fia, como diz o ditado. A minha infância eu com sete anos de idade eu já vivia  por dentro dos roçados, botando uma enxadinha aqui nas costas, uma enxada pesada, entendesse? Ia fazer coisas que não sabia. Eu botava punhado de milho numa cova, um negócio que parece que era cinco carocinho em cada cova, eu botava um punhado. O feijão também, num instante, em um pedacinho eu fiz um quilo de milho e um quilo de feijão. Minha infância foi carregando lenha.

Por trás do cemitério eu ia pegar aruá pra comer, oxente, mái menino, eu não tenho vergonha de dizer o que eu era não. Eu passei por isso mesmo, e todos daqui passaram por isso também. Hoje que tá muito adiante, hoje todo mundo é rico, filha. Todo mundo tem sua televisão, tem sua casa própria, tem casa de cerâmica, tem tudo, né?

Eu fazia tapete na luz do candeeiro

Chegou essa Teresa Lira, ela era uma artesã de Casa Caiada, uma fábrica aqui em Camaragibe.Eu só sei que cada artesã procurava uma cidade que não tinha esse artesanato que é pra ela ensinar. Ela chegou aqui numa casa aqui em Lagoa do Carro, alugou um casarão e ficou, e chamou umas vizinhas do casarão, pra chamar umas meninas pra ela ensinar a fazer esse tapete. Aí ela levou uns tapetinhos assim pra mostrar as meninas. Aí rateou a cidade que era pequenininha, nera? todo mundo queria fazer alguma coisa aí a gente fomos, nesse casarão foi meio mundo de mocinhas pra trabalhar, pra ela ensinar. Ensinar o ponto primeiro, depois ensiner como desenhar, ensinar como encher, ensinou todo, todo do tapete a nós. Eu lembro que eu aprendi rápido. Oxe, aquela sensação gostosa, eu levei assim, pronto aprendi.

Ela sabia as pessoas que já aprendeu certinho. “Olha, isso aqui, essa tela aqui você vai fazer só carreira lisa em casa, você faça, amanhã você traga pra eu ver se tá certo ou não”. Aí, eu fiz. Eu não sabia se tava certo ou tava errado. Levei pra ela, aí ela disse que tava certo. “Você vai encher todinho, agora esse aqui tá muito bonito, faça como se fosse um enchimento de um tapete.” “Tudo bem”. Aí ela: “Você quer aprender a desenhar?”  “Quero”. Aí ela me ensinou, ela riscando, “é esse risco aqui dessa cor é dessa cor de  linha aqui, onde tiver desse ponto aí você vai botando todinho dessa cor. Esse outro risco aqui é dessa cor de lã aqui, entendeu?” Ela amarrava o pedaço de lã em cada risco. Só sei que eu fui aprendendo assim… como que você tivesse contando ponto. Pronto “É assim que a gente vai aprendendo fazer no tapete, contando ponto dos desenho. Isso aqui é um desenho”. Entendeu? “Onde tiver risco de cores diferentes é desenho” aí eu fui aprendendo.

A minha inteligência parece que foi puxando mais aquilo, e eu depois que fiz tudinho, risco diferente, cores diferentes, levei pra ela. “Tá certo!” “Agora, todos esses vagão você vai encher dessa cor. Tudo agora você vai encher com essa cor, essa cor  se chama cru”. Eu agradeço muito a Deus por aprender isso aí.

Eu comecei a fazer tapete eu tava com quatorze anos de idade, eu fazia tapete na luz do candeeiro, tu já sabia? Na época não tinha luz em Lagoa do Carro. Fazia na luz do candeeiro, de noite, todo mundo ia dormir eu ficava ali… eu botava um tapete desse… eu não fazia pra mim não… Fazia pra Casa Caiada, entendesse? Eu botava um tamburete assim, um candeeirozinho, vê mesmo? e começava a trabalhar todo mundo tomava seu cafezinho, aquele cuscuz com sardinha, comiam e iam dormir e eu lá no tapete. Ali mesmo eu dormia, em cima do tapete. Aí era quando eu  comprava minhas roupazinhas, dava a meus irmãos, entendeu?

E hoje eu sou apegada nisso aí, hoje eu tô com 57 anos trabalhando nisso aí, todo mundo fica, oxen, tu aposentada, se matando com tapete. Não não é uma aposentadoria de 900,00 que vai dá tudo. eu ainda bem que não pago aluguel, mas tenho filho pra ajudar, tenho neto pra ajudar, tenho os meus irmãos que precisa, entendesse?

Eu fui uma pessoa trabalhadora...

Eu nunca tinha trabalhado em casa de família, eu fui trabalhar em casa de família depois do meu filho. Eu fui uma pessoa trabalhadora…

Criei meu filho sozinha com meus pais. Tive meu filho em Paudalho… Me virei como eu pude. Já tá com trinta anos, já casou, já me deu neto. Fui trabalhar em casa de família pra dar a ele o que eu nunca tive e o que eu queria que ele tivesse, entendesse? Não é um doutor hoje porque não quis, mas tudo eu dei e tava dando ainda se tivesse.

O pessoal gostava de empregada daqui porque demorava a ir pra casa, ia pra casa de mês em mês, ou então de 15 em 15 dias, né? e era de confiança, né? que elas queriam. Aí eu fui trabalhar, a gente vai com um medo, né? Só sei que eu fui. Medo de você fazer uma coisa e eles não gostarem, né? Meu medo era sempre assim. Sei que foram gostando de mim, eu sou uma pessoa que me ferrava, sabe? Mái eu aguentei. Me testaram de todo jeito, mas eu aguentei. Eu passei muito tempo… fui trabalhando.

Eu fui pra São Paulo trabalhar lá, não aguentei. Aí eu voltei, antes de ir pra São Paulo eu tinha trabalhado em Olinda na casa de outra mulher. Encontrei uma menina pequenininha e hoje ela já deve tá casada. Voltei de São Paulo fiquei em casa uns dias… Tinha uma vizinha minha de frente que trabalhava em Recife e pedi pra ela arrumar um emprego pra mim de doméstica. Aí eu só sei que essa pessoa arrumou e eu fui trabalhar. Os patrão eram adevogados, gostaram de mim.

Você tem que parar pra estudar o colorido

Hoje eu agradeço a Deus por mim dá essa inteligência, isso aqui eu sei fazer. Isso aqui? Quanto mais eu faço eu tenho vontade, que quando eu me sento pra fazer eu só me sento depois do almoço que se eu me sentar antes, fica casa, fica tudo, porque não dá vontade de você se levantar não.

Eu já era associada, acho que tá fazendo agora uns dez anos. E assim eu fui criando de pouquinho em pouquinho, e hoje eu tô cheia graças a Deus.

É porque você chega aqui nessa associação e vê muito desenho repetido, né? Esse daqui eu criei, mas já tem alguém que já fez ele, fica tirando cópia. Tinha um tamburetizinho, eu sentei e fiquei estudando, sabe que dá um tapete isso aqui? Eu vou ver se consigo, aí eu peguei um pedaço de tela e uma caneta, aí, comecei pelo risco. E foi uma complicação só sei que eu…. você tem que ter cabeça, né? e eu fiz. Eu fiz, eu fui fazendo tapete desenhando a forma que tava no meu piso, entendeu? E ficou bonito, né?

Aí é que é ela, né? Você tem que parar pra estudar o colorido. Tem que ser tom sobre tom. Se você desneha com verde você tem que botar o enchimento verde, não vai botar reto, né? Quando não gosto da cor eu tiro. Corto todinho e boto outra. Tem que estudar filha, estudar colorido é que é ela, ta pensando que todo mundo… “eu faço tapete!” vamo vê como?! Aqui todo mundo repete um desenho, é bom, mas eu gosto de inventar coisa diferente.

Eu tenho uma toalha de mesa em casa de renda que eu tirei essa mostra pra um tapete, eu nunca fiz o tapete, mas minha colega aqui já fez e já vendeu. Eu falei pra ela: “esse tapete, esse desenho é meu foi eu que criei”, eu tirei, né? tirei de uma toalha de mesa e fiz um tapete, quer dizer eu criei o desenho.

Eu queria tirar a amostra, esse aqui eu inventei, entendesse? Se eu inventar agora eu não sei se eu vou fazer certo feito esse. Aquilo que você inventou, que deu certo e foi vendido você tira a amostra, porque se não se for vendido eu vou ficar desarmada.

O enchimento eu pago pra fazer, se fosse pra fazer eu faria, porque no tempo que eu for fazer o enchimento eu tô desenhando outro, entendesse? Tem muita menina aqui que trabalha, entendesse? Elas quere um tapete pra encher, quer ganhar um trocadinho, eu não vou fazer tendo alguém que faz e faz bem feito, né?

Terra do tapete porque quem faz é as tapeceiras

Eu gosto tanto que eu fiz essa pergunta a Deus, depois que eu terminei desse último emprego eu fiquei parada, eu digo: ”Meus Deus, o que é que eu vou fazer da minha vida?” Eu escutei Deus dizer: “Vai fazer o que tu gosta e o que tu ama”. Meti o pau a fazer o que eu gosto e o que eu amo, tá aí ó. E quanto mais eu faço eu tenho vontade.  Só quando eu morrer, se eu parar um dia eu vou ficar doente, eu não posso mais trabalhar em casa de família, eu tou de idade já, entendesse? Fazer quase 60 anos.

Sonho eu tenho muitos, né? não sei se eu chego até lá agora. Eu queria aumentar o assim o tapete, eu adoro fazer tapete, é tão bonito você ser artesã, a gente é tão parabenizada, chega tanta gente aqui. Essa cidade devia ser mais valorizada pela prefeitura, dar mais conta a gente. Porque isso é um artesanato muito trabalhoso, bonito e Lagoa do Carro como uma cidade pequena com um artesanato desse, terra do tapete, veja, aí você quando passa, quando tem qualquer anúncio na cidade, aí o carro de som: “terra do tapete trabalhando por você”, eu trabalho por todos, é bom, eu acho bonito isso. E só existe a terra do tapete porque existe as tapeceiras, se não existe não existia tapete. Terra do tapete porque quem faz é as tapeceiras.

Eu não sei eu me sinto tão gloriosa de ser artesã, eu nunca sabia, eu nunca tinha sentido que eu era uma artesã. Eu sou uma artesã. Porque a artesã pra mim é aqule que cria, cria  o artesanato, cria os desenhos, quer dizer no meu artesanato, o meu artesanato é esse aí eu não tenho outro. O meu trabalho muita gente tem dificuldade de aprender… já eu, show de bola. Eu gostei muito do meu, o meu é muito bonito, não sei se vocês gostam, mas o meu é muito bonito. Pegar uma tela limpa e deixar assim, à mão, ponto a ponto.

Esse tapete foi pelas minhas mãos

Fiz um tapete pra igreja católica, 12 metros de tapete. O padre: “Eu quero um tapete pro altar da igreja pra festa da padoreira” ele me pediu esse tapete em outubro, a festa da padroeira era em fevereiro. Eu tinha só esse tempo pra fazer esse tapete.

Eu fiz esse tapete sozinha. Eu convidei alguém pra me ajudar, o pessoal “oxi, isso aí? é trabalho que só. É muito trabalho e pouco tempo”.

Olha, 5hs da manhã eu já tava agarrada com o tapete, eu botava do lado da minha casa que tinha sombra, 9hs eu entrava, ia fazer os serviços, depois que todo mundo almoçava eu me sentava do outro lado da casa na sombra e trabalhar, trabalhar, e de noite ia trabalhar até me dá sono.

Olhe, 7 de outubro, 9 de janeiro esse tapete tava pronto, em cima do sofá. Agora eu botei uma enchedeira que ela botou duas meninas pra encher. Mas o difícil era desenhar ele, contornar ele todinho, o desenho todinho. O difícil era isso e pra encher foi rápido.

Eu fui pra ver meu tapete expor aos pés do altar, me gloriei demais, senti jesus passeando por cima, indo e voltando, e todo mundo: “Quem foi esse tapete?” Eu disse: “Esse tapete foi pelas minhas mãos” e todo mundo parar pra ver o tapete.