V., 59 anos

V. é sobrinha de Tia Lala. Aprendeu renda desde criança com ela e acompanhou sua tia em seu trabalho. Sabe desenhar. Hoje faz poucas peças, não mais para venda, mas para presentear. Conta suas histórias na sala da casa de Dona Ana Alice. Suas fotografias foram na rua onde mora, na frente da casa de Maria de Odon.

 

Por Luiza Maretto

Primeira mulher que procuramos ao chegarmos em Poção. Lembrança de como se fosse hoje: perguntamos por ela e depois de pouco tempo, V. aparece e fica parada em nossa frente por alguns segundos, talvez anos. Olha diretamente em nossos olhos, repara, presente. Nos (re)conhece. De onde? Dali mesmo, do presente, deve ser. Tiquinho de gente recebe o olhar e nome. V. repara que nossos sapatos são parecidos. Ela conhece as pessoas. É conhecida por elas. E, assim, animada e generosa, nos apresenta a Maria de Odon, logo ali perto, e mostra a renda bonita que a outra faz!

No mesmo dia, V. nos acompanha no mercado, nos apresenta para a moça que trabalha ali e comemos salgado de queijo juntas. Se tivéssemos mais tempo, V. disse que nos levaria para muitos lugares, para conhecer muito mais pessoas!

Ela nos encontra pelo caminho. V. encontra as coisas pelo caminho. V. anda e encontra caminho, chinelo, osso de galinha, saco, linha… e cria flor, boneca pra brincar, roupa pra usar. V. caminha. V. tem o poder de desver o mundo. V. conta a história de Poção, e também a sua história. Saindo de casa, uma parada no riacho pra calçar os sapatos e seguir pra escola. Matos, ruas, lá estão V.

E passa o vento…ele bate na porta da casa de Dona Ana Alice, onde V. escolhe contar tudo que sabe e sente. O vento faz barulho, parece gente que quer entrar. Quem é? O vento. Ele quer escutar história? Ele traz história? Passam as estações, as folhas caem e as sementes são levadas com o vento que a gente não vê. Mas quando o vento esbarra na gente, faz sentir a pele, balança cabelo, faz a gente reparar na gente, no que passa pela gente. Vento também tem som quando encontra com coisa, e quando está só também. Quando a gente se movimenta, também cria vento. Rodopiando, quem vem primeiro, a gente, ou o vento na gente?

As consequências dos ventos da vida e da história da renda ela sabe. E conta, com os detalhes e a surpresa de criança que conta, e sente. Guarda memória, guarda infância, guarda boneca, guarda história. E conta, com muita emoção. Memória de afeto, memória de sentir. Hoje é o tempo do quanto sentimos. Sentimento não tem hora, nem mês, nem data, tem vida. Poder de afetar o tempo, abrir buraco da história, da memória, criar imensidão, ampliar a linha, a visão, a imagem do tempo.

Assim, de uma história a outra, as linhas seguem sem reta, sem rumo certo, com a emoção. De um ponto a outro, a história de quem viveu a renda e o surgimento da renda se (re)faz, na palavra, pela lembrança, atravessa nossos ouvidos, nossa história. V. é sobrinha da Tia Lala e viveu com ela, sabe onde era a casa da escola de renda. Pode mostrar, apesar da fachada ter mudado, ela lembra onde fica.

Com o olhar cheio de flor, a gente quase não pergunta e ela vai dizendo. O detalhe importa. Tem pausa, tem tons de voz, tem círculo, tem fiapo, tem renascença. Tem sonhos de menina, de senhora, de boneca, de renda. Vai e volta. Inventa boneca de milho.

A gente tem o compromisso de escutar, de abrir bem os ouvidos e respeitar quem viveu. Escutar o que a pessoa quer contar. Escutar o vento, escutar cheiro, escutar o que pode parecer pequeno, mas é muito grande. Função de escutar mulher, escutar olhar que brilha. Respeitar quem viveu a história, quem sentiu, quem olha nos olhos. Escutar o vento. E aprender a escutar quem sabe dar às pedras costumes de flor, como bem anuncia Manoel de Barros. Suas fotografias são na rua, e o sol de tarde está ali pra iluminar.

Narrativa

Nasci em casa

Nasci em Poção, nascida e natural de Poção.

Nasci em casa, não tinha maternidade na época não, era parteira. Até a minha faleceu já.

Nasci na entrada que vai assim pra o Prado. É… deixo eu ver o nome da rua… Rua Padre Biapino, é como desce que vai pra o Prado. Nasci mesmo numa casa que era de tijolo cru, nasci e me criei-me lá.

Minha vó que me criou, que minha mãe vivia trabalhando pelas rodagens com meu pai e fiquei criada por vó, Ana Julia. Ela foi criado do mato, sim que não podia ver ninguém, aí pronto.

Fui muito sofrida, muito sofrida mesmo

Fui muito sofrida, muito sofrida mesmo. Minha vó me criou eu, leite de gado nem pensar, eu fui criada com o soro do leite, pra ver se eu pegava na mamadeira, não era mamadeira era uma garrafa com um biquinho daquele de cabrito. Não sei se ainda existe no mercado porque eu tenho vontade de comprar pra eu guardar.

Minha roupa mesmo que eu me sentia bem era de saco. Essa tava rica, chique de doer eu tava com essa roupa.

Pra você vê como são essas consequências, hoje a gente tem muita história pra contar

Era um sofrimento, mulher, a gente. E hoje eu vejo tanta coisa, as mãe chegar na loja, comprar aquelas bonecas bonitas, aí, eu olhava pra mulher da loja “meu deus, nunca que eu tive direito a uma boneca dessa”.

Só uma boneca que eu tinha que era Wanderléia. Primeiramente (as bonecas eram feitas de) sabugo, osso de carne, caco de prato que eram os meus prato. Pegava melão de são caetano ia tirar aqueles carocinho vermelho e pegava e repartia com uma faquinha de pau.

Pra você vê como são essas consequências, hoje a gente tem muita história pra contar.

E as boneca de pano eu escondi  tão bem guardada num canto que nem eu mesmo  sei onde botei. Três bonequinhas de pano que meu avô trouxe de Caruaru,mas as boneca que eu mais gostava mermo era minha bonequinha de osso e minhas boneca de milho.

Botando água de ganho pra sobreviver

Botando água de ganho pra sobreviver, pra cuidar dos meus irmão pra não passar fome, e quando chegava uma pessoa de fora de carro, eu chegava perto, com medo mas chegava “a senhora quer renascença? eu sei onde tem” ela dizia: “quero”. Aí ela dizia:” eu quero uma colcha de banquete”, aí eu dizia “vamos que eu vou lá mostrar onde tem”.

Via minha mãe sofrer e eu sofria junto com ela. Botei muita água na delegacia.

Ia buscava no sítio daqui pra beber, ali tinha um poço hoje que era, o poço artesiano que fizero, a gente carregava água dali mas era muito grosseira, pra beber não prestava, só prestava pra cozinhar. Ia pra o Candeeiro pra buscar água de beber, minha fia. Minha vida foi um tormento

A minha sabedoria foi essa, aprender a renascença

(Aprendi) a renascença foi com minha tia Lála, ela que me ensinou minha sabedoria. Ela é irmã do meu pai, porque ela é igual a mim e eu sou igual a ela. Não sou porque eu não ensino renascença.

A minha sabedoria foi essa, aprender a renascença com  isso aqui, que eu não tinha dinheiro pra comprar lacê, aí minha peça mesmo foi que eu fiz, que eu vendi pra uma mulher do Recife… Aí eu fui fazendo, desmanchando uns novelinhos de linha pra os outro.

Lembro (as primeiras peças que vendeu) um pano de bandeja e um pano de pão. Os pontos? Dois amarrado, pipoca, traça, rechilieu, e quando o de bandeja eu todo de paraná, hoje o povo usa como amor seguro, é o ponto paraná. Depois que eu tinha uma vaguinha eu ia brincar com as minhas bonecas de osso.

A idade que eu tinha era, eu aprendi renascença com 8 anos de idade. Eu ia pra casa dela (Elza Medeiros – D.Lala) que eu já botava água pra ela de beber, carregava da cacimba de Seu Malaquias, o fundador do Hino de Poção.

Aí ela disse: ” Vamos tomar café?” eu disse: “bora”. Eu lembro até da cadeira. A casa dela era ali onde é hoje o centro de comércio, a casa dela.

Peguei minhas tira de pano, linhavei, fiz um “E” que eu aprendi que só fazia “E” na escola. Aí aprendi vendo uma vez só ela (Lala) fazendo.

Ela (Maria Pastora) não queria ensinar pra tia Lala

Ela (Maria Pastora) não queria ensinar pra tia Lala porque ela vivia trancada dentro de um quarto, que era uma garrafa no telhado pra ficar claro, na época não tinha aquelas telha, né? Tia Lala não teve dúvida, pegou uma escada e “ou você abre a porta ou eu vou subir”, e subiu, que era dessas paredes bem alta, subiu e olhou assim: “abre a porta ou não?”. Ela disse “desça”. Abriu a porta, botou a renascença assim, cobriu, e foi ensinar a Tia Lala. Tia Lala aprendeu com isso aqui, igual a mim. Ela foi primeiro, depois fui eu.

Aí Áurea Jatobá já ajeitou ela (Lala), comprou as peça dela das meninas dela, com as trabalhadeiras.

Eu fiz pra irmã dele (Frei Henrique) um pano de bandeja

O primeiro renascenço que eu alinhavei não foi com cirê, foi com fita bebê. Carretel de linha de máquina.

Ah, minha filha, foi muita felicidade, foi muita emoção que eu cheguei lá pra o padre Frei Henrique que eu ia pro catecismo. Ele disse que ia levar pra Alemanha. “Você tem dinheiro pra comprar lacê?” Eu disse: “Eu faço do mesmo jeito que eu fiz esse aqui” aí ele disse “Não, eu vou comprar o lacê na loja”. Eu fiz pra irmã dele um pano de bandeja e ele levou.

A coisa mais feliz que eu tenho na minha vida é a minha renascença

Lala ela me ensinou coisas muito importantes, isso eu agradeço muito a Deus a pessoa que eu sou e não deixo de ser. Eu não tenho olho no que é dos outros não.

A coisa mais feliz que eu tenho na minha vida é a minha renascença.  Trabalhei com outras pessoas fazendo pedaço de toalha, mas não vale a pena você dá seu esforço pra outra pessoa, aí você chega lá e ela quer dá abaixo do preço. Aí não dá. Gosto de fazer minhas coisa sozinha.

(Hoje) Faço um pouquinho só não tô fazendo muito porque eu tive a chicungunya. Faço pra mim, fiz uma blusa pra minha neta.

Fiquei com ela (Lala) até o fim da vida

Lala queria falar comigo, voltei e fiquei com ela até o fim da vida. “Preciso me despedir de você” “Porque a senhora quer se despedir de mim, tia, porque logo eu, tanto sobrinho que a senhora tem, tia?”. Eu mesma quero ser enterrada no chão limpo. Só eu que quero assim.

Vou ser muito sincera, eu não gosto de matemática

Tô (estudando). Fazendo EJA II. Só pra não tá em casa. Escrever é comigo mesmo. A tal da bichinha que me dá febre e dor de cabeça, a matemática, vou ser muito sincera, eu não gosto de matemática.

Eu amo a minha renascença, eu amo meu trabalho. Se você não der valor a você mesmo quem vai dar?

O valor? (da renascença) minha filha, a renda não se troca por valor nenhum. Tem que ter o valor dela certo, o limite que a pessoa que vai comprar vá dá o certo, não pra botar pra menos.

Eu amo a minha renascença. Meu trabalho é tudo na minha vida. Eu amo meu trabalho. Se você não der valor a você mesmo quem vai dá?

Na antiguidade eu acho que ela tinha mais valor. Do jeito que tá essa fração, minha filha, só Deus.

Meu sonho da minha vida que tá lá, é minha boneca

Meu sonho… Já vieram me buscar pra eu passear de avião ir no Rio de Janeiro pra eu conhecer e eu não tive coragem. Eu não fui não. Meu sonhando eu estou trabalhando pra realizar ele na loja que é meu sonho da minha vida que tá lá, é minha boneca, é um bebezinho. O sonho da minha vida tá lá na loja. O sonho da minha vida toda vez quando eu vou na loja que eu for comprar qualquer coisa eu tenho que passar na loja pra ver se ela ainda tá lá.

Eu só tô esquentando com uma prova de matemática aí.