Lagoa do Carro

por Clara Nogueira

17.847 habitantes (estimativa 2017, IBGE)
Área 69,6 Km²
Zona da Mata Norte de Pernambuco
Localizada entre o Rio Tracunhaém e o Rio Capibaribe, e entre as cidades de Carpina, Limoeiro, Lagoa de Itaenga
61 km do Recife

Lagoa do Carro se tornou cidade há 26 anos, mas a ocupação de seu território e a luta pra torná-lo um município independente carrega uma história longa e antiga. Risolange Rodrigues1, que carrega o riso não só no apelido, nos contou que “Lagoa do Carro é uma cidade bem antiga, ela vem do período provincial. Pertenceu a Olinda, a Igarassu, pertenceu a Nazaré da Mata e pertenceu a Carpina, foi emancipada na década de 1970, aí voltou a pertencer a Carpina; quando foi em 1991, foi finalmente emancipada, mas ela é uma cidade histórica. A Padroeira daqui tem 278 anos, normalmente a cidade é contada, a idade dela, a partir do padroeiro, porque era um costume dos jesuítas, né? Eles vinham e colocavam logo a igreja pra poder trazer as pessoas”.

Segundo consta, a origem do nome da cidade se deu a que, anos atrás, um carro de boi carregado de tijolos caiu numa lagoa. Os moradores, após o episódio, de tanto que se referiam à “lagoa que caiu o carro”, transformaram o ainda vilarejo, de “Terra de Santana”, em Lagoa do Carro.

Nos anos 1970, quando Teresinha Lira2 chega a Lagoa do Carro trazendo a tapeçaria, a, hoje cidade, era ainda distrito de Carpina. Parte de sua população morava em sítios, engenhos e fazendas. Os canaviais eram responsaveis pelo sustento de muitas famílias, e a pobreza tinha casa por aqui. Os moradores foram aos poucos migrando para o centro, chamado de “rua”, e muitas famílias foram se desmembrando entre cidades que lhes apresentassem um pouco mais de oportunidade. Lagoa do Carro não tinha uma situação econômica que comportasse a necessidade de seus moradores, nem infraestrutura adequada. Na época, não se tinha água encanada, por exemplo, e algumas mulheres e crianças faziam o serviço de carregar água para abastecer as casas daqueles que pudessem pagar, chamavam de “água de ganho”. Estes e outros serviços eram o sustento de muitas famílias que moravam no centro. Não se tinha luz elétrica também e se fazia os tapetes na luz do candeeiro, como nos conta T3: “Eu comecei a fazer tapete eu tava com quatorze anos de idade, eu fazia tapete na luz do candeeiro, tu já sabia? Na época, não tinha luz em Lagoa do Carro. Fazia na luz do candeeiro, de noite, todo mundo ia dormir eu ficava ali… eu botava um tapete desse… eu não fazia pra mim não, fazia pra Casa Caiada, entendesse?”

Em Lagoa do Carro passava-se fome de um jeito que não existe mais, conta-nos L.4, saudosa do tempo do sítio, mas que nele também passava necessidade.: “Ah, na época eu gostava, no sítio. Na época, eu achava bom no sítio também. Naquela época, eu lembro que minha mãe mandava eu limpar feijão, ela já mandava a gente apanhar pimentão, plantar batata, macaxeira, a gente era pequena mas já ajudava meu pai, né? Que eles eram agricultores e ela já mandava. Aí, quando a gente veio pra rua foi assim uma coisa diferente, né? Porque lá era um sítio, uma casa distante da outra. Mas minha mãe como tinha muita necessidade por conta daquele tempo, eu digo que naquele tempo o pessoal sabia o que era fome e hoje não sabe mais”.

As vilas do centro foram então comportando mais e mais casinhas. A passos lentos, foram chegando os comércios, serviços e instituições. O centro oferecia proximidade a esses estabelecimentos, e a cidade foi crescendo. Mas, ainda hoje, a principal fonte de renda de seus moradores é a agricultura5, e quase metade da população (48,5%) ganha em média 1,8 salário mínimo. Segundo Cícero Antônio da Silva, autor do livro Lagoa do Carro – Retratos de Um Povo em Contos, Versos e Prosa, exposto em destaque na biblioteca da cidade, “a terra é boa pra o cultivo de feijão, mandioca e algodão”. Mas o cultivo predominante era o da cana-de-açúcar “graças aos colonizadores que aqui chegaram”.

A lã do tapete se emaranha com a história de Lagoa do Carro em 19756. Teresinha Lira, nesse momento, trabalhava para a Fábrica de Tapetes Casa Caiada de Camaragibe, e andava por vilarejos à procura de mulheres que suprissem a demanda do fazer da Fábrica. As mulheres, sem oportunidade de emprego na cidade, logo souberam da vontade de Teresinha e encheram suas aulas. Teresinha alugou uma casa ao lado da Lagoa para ensinar a centenas de mulheres que apareceram, e estas quando aprendiam ensinavam outras, e assim a história da tapeçaria teve seu início por aqui. “Ela chegou aqui numa casa aqui em Lagoa do Carro, alugou um casarão e ficou, e chamou umas vizinhas do casarão, pra chamar umas meninas pra ela ensinar a fazer esse tapete. Aí ela levou uns tapetinhos assim pra mostrar às meninas. Aí rateou a cidade, a cidade que era pequenininha, nera? todo mundo queria fazer alguma coisa, aí, a gente fomos, nesse casarão foi meio mundo de mocinhas pra trabalhar, pra ela ensinar”, disse T7. “Elas produziam realmente pra ajudar em casa, os pais realmente não porque os pais eram maioria cortadores de cana, aí passavam o dia fora aí quando eles voltavam à noite eles faziam outro tipo de trabalho. Desfiar meia por exemplo, fazer bolsa. Não sei se vocês já viram… não tem umas bolsas de pão que vende na padaria? aquelas bolsas de pão não eram produzidas pelas grandes fábricas, elas eram produzidas pelas pessoas do interior principalmente”, contou-nos Risolange.

A cidade, hoje conhecida como “Terra do Tapete”, já possuía essa extensão em sua nomenclatura quando se tornou município. Este título se incorporou à cidade de forma indissociável. Muitas mulheres ajudaram a tecer a Lagoa do Carro como hoje a conhecemos e como ela se reconhece; Disse-nos T.8: “E só existe a terra do tapete porque existe as tapeceiras, se não existe não existia tapete. Terra do tapete porque quem faz é as tapeceiras”. A “Terra do Tapete”, é, na verdade, a “Terra das Tapeceiras”.

A Associação de Tapeceiras de Lagoa do Carro – ASTALC9, fundada em 1989, dois anos antes de Lagoa do Carro ser um município, tem sua história emaranhada com essa nova condição territorial de cidade. “Lagoa do Carro por causa da história de luta das mulheres, do quantitativo das mulheres, porque sempre foram muitas mulheres produzindo e a Associação deu essa força, né? Fez com o que a cidade tenha esse reconhecimento como terra do tapete”, contou-nos mais uma vez Risolange. Sob os esforços de Isabel Gonçalves, sócio-fundadora, e de outras mulheres, a Associação é um espaço de resistência e luta pelo desenvolvimento local e pelo direito das mulheres artesãs. Mantida pelas próprias tapeceiras, funciona de domingo a domingo, exibindo os tapetes que guardam a história de sobrevivência dessas mulheres. Está localizada à margem da PE-090, com vista pra rua que desagua na lagoa.

A lagoa que existe hoje, de acordo com os moradores, é artificial e está em um lugar diferente de onde o carro de boi caiu de verdade. Naturalmente, é um dos cartões postais da cidade. Nela, há a escultura de Jesus Cristo de braços abertos, pintado de branco, feita pelo artista Eraldo Ramos, que diz “pesar toneladas”. A escultura, muito disputada à tarde por passarinhos que a fazem de abrigo, tem o pôr-do-sol às suas costas. Esse momento costuma ser ainda musicado pelo som de centenas de passarinhos que disputam acolhimento numa árvore localizada em frente à lagoa.

As ruas de sua paisagem-centro são formadas por asfalto, paralelo e barro, e por casas conjugadas. A recorrência de varais de roupa a céu aberto parece um aviso da dissolução do limite entre os espaços da casa e o da cidade, nos fazendo acreditar que este pode ser, muitas vezes, inexistente.

No centro de Lagoa do Carro, também chamado pelos moradores de “rua”, ficam localizados os principais estabelecimentos comerciais, institucionais, as praças, a lagoa, a igreja. Contrastando com a paisagem verde dos sítios, fazendas e engenhos que fazem parte de seu território.

A Padroeira da cidade é Nossa Senhora da Soledade. Para contemplá-la e agradecer suas bençãos milhares de fiéis católicos fazem a tradicional procissão com sua imagem no andor, no início de fevereiro. Muitos devotos fazem essa caminhada com tijolos na cabeça como forma de pagar promessas. Um dia após a procissão há a entronização da imagem da padroeira na igreja que tem seu nome. O altar da igreja é recoberto pelo tapete feito por T.. que nos disse: “Eu fui pra ver meu tapete expor aos pés do altar, me gloriei demais, senti Jesus passeando por cima, indo e voltando, e todo mundo: ‘Quem foi esse tapete?’ Eu disse: ‘Esse tapete foi pelas minhas mãos’.” Em pouco tempo e com muito trabalho T. fez o tapete sob encomenda, nos servindo de exemplo, mais uma vez, que quem sustenta as histórias e cenários da cidade são as tapeceiras.

A Feira do Tapete também acontece anualmente na praça da cidade, reunida pelos esforços que fazem as tapeceiras para conseguir exibir e vender suas peças. Nesse dia homenageia-se as mestras artesãs mais antigas e que tiveram destaque na produção de tapetes em Lagoa do Carro.

A cidade é também morada do Museu da Cachaça, uma coleção pessoal que angariou para José Moisés de Moura, seu fundador, um lugar no Guiness Book, como maior colecionador de cachaça do mundo. O museu recebe visitas de pessoas de todo canto do mundo. Por outro lado, O Roncador, pequena queda d’água que se esconde dentro de um sítio particular, é a diversão dos moradores da cidade. O nome “Roncador” se refere a um barulho que alguns dizem ser ouvido no centro da cidade. Um ronco forte que se escuta quando a água passa com mais vazão; mas os moradores dizem que hoje quase não se escuta, dizem que antigamente se ouvia mais.

O centro tem o som das rádios. Seu alarde útil se espalha por bocas megafônicas com publicidades de mercadinhos, lanchonetes e outros estabelecimentos, intercaladas por músicas escolhidas por moradores e informações sobre eventos da cidade. Na “rua” também reverbera o som do galope dos cavalos, do cano de escape das motos e do carburador das kombis, que substituem os passos dos pés quando o deslocamento se mostra um pouco maior.

A memória da vida recente de Lagoa do Carro hoje parece algo como um cenário mágico. Num tempo, não muito distante, as mulheres bordavam seus tapetes em frente às suas casas. Nas calçadas, fugindo do calor, elas se reuniam em grandes ou pequenos grupos pra encher os tapetes de pontos e histórias. A temperatura elevada obrigava à reunião, e, por isso, a atividade do tapete fazia-se também com a pausa e o ritmo das palavras enredadas, que são matéria de outro tipo de lã. Quando não se tinha luz dos postes, esta vinha dos candeeiros acesos, testemunhas de longas noites de trabalho intenso. Hoje, apesar de termos passado alguns dias na cidade, não vimos esta cena antes tão recorrente. Conhecemos sua existência somente pelos relatos das mulheres, que puxam essas lembranças de algum fio solto de saudade. Muitas mulheres deixaram de fazer do tapete sua principal fonte de renda e migraram para outras áreas. São agora comerciantes, empregadas domésticas, trabalham com outras especifidades artesanais que existem na cidade. Algumas são aposentadas, e muitas desempregadas.

À noite, a cidade vai, aos poucos, se guardando. As brincadeiras e as caminhadas nas ruas e praças atualmente desconfiam um pouco mais da própria liberdade. A violência, aquele estrangeiro metropolitano, visita com alguma frequência a vida de Lagoa do Carro. É evidente, esse cuidado, em alguns estabelecimentos que têm grades por cortinas (que é feita do fio duro e inflexível do medo), como é o caso da barraca de seu Zé Barbeiro, que tem anotado dia, mês e ano as vezes em que foi assaltado.

Mas, apesar de tudo, ainda permanece um ar de calmaria, de olho no olho, de confiança, de conversa desabrida. Hoje com expediente diurno, as tapeceiras contam como era também sob as estrelas e a brisa macia da noite que teciam histórias. Numa manhã de domingo em que lá estivemos, uma mulher passou por nós com um tapete enrolado embaixo do braço. Paramos para pedir uma informação a ela; nos deu e seguiu o seu caminho. Na segunda-feira, a encontramos novamente. Chamava-se Maria. Esses dois encontros foram os únicos que tivemos com uma tapeceira transeunte, infelizmente. Mas, de fechada no primeiro encontro, logo se tornou doce – e ainda hoje nos manda mensagens de saudade e de bom dia. Felizmente.

A cidade contada aqui é a cidade que visitamos. Pra entendê-la e experimentá-la precisaríamos de uma vida. Risolange nos levou à sua rua de moradia por muitos anos, e é com a fala dela que termino as impressões sobre a cidade, a cidade que é contruída por memórias, por pessoas: “Eu gosto muito dessa coisa da rua, porque a rua não é só a rua pelas pedras, as ruas são as pessoas, são as pessoas que vão que vem, é o seu amor impresso que fica ali, então assim a rua é bem mais que o paralelepípedo, ela traz consigo as lembranças. Quando você coloca o pé na rua que você gosta muito você lembra de muita coisa”.

1 Ver a narrativa completa de Risolange.
2 Ver a narrativa completa de Teresinha.
3 Ver a narrativa completa de T.
4 Ver texto Mulheres que Tecem Pernambuco.
5 Fonte IBGE, 2015.
6 Ver texto sobre Tapeçaria de Lagoa do Carro.
7 Ver texto Mulheres que Tecem Pernambuco
8 Idem nota 7.
9 Ver texto sobre Tapeçaria de Lagoa do Carro.

Tapeçaria em Lagoa do Carro

Primeiros pontos, algumas histórias

De longe, a tapeçaria (tapete ou mural) revela uma imagem. Quando nos aproximamos, no entanto, vemos que essa imagem, na verdade, tem textura, e é constituída por muitos pontos de lã. Muito semelhante ao zoom dado por câmeras, esse efeito de pixelarização acontece. Desse modo, os pontos que compõem a imagem vão aos poucos sendo revelados. Quando chegamos mais perto, vemos com riqueza de detalhes o trabalho, a dedicação, a paciência e o tempo que estão, juntamente com os pontos, bordados em sua superfície. O que traremos aqui, contudo, é a tentativa de desvelar que além do mergulho na técnica com seus pontos, cores e processos, a tapeçaria, neste caso, os tapetes de Lagoa do Carro, carregam sobretudo muitas histórias.

A técnica que temos hoje na construção dos tapetes de Lagoa do Carro, tem sua origem na Pérsia. Chegou a Portugal durante a ocupação mourisca. O vilarejo Arraiolos era uma pequena província de Alentejos, tornou-se famoso pela produção de tapetes que copiava motivos persas. A manufatura de Arraiolos ficou mais importante quando as bordadeiras inovaram as composições orientais criando novos bordados, cujo ponto utilizado por elas leva o nome da província. Foi posteriormente trazida ao Brasil pelos portugueses. Em Pernambuco, a tapeçaria era ensinada em conventos e também pela tradição oral, de geração para geração.

Contou-nos Teresinha Lira, responsável por levar a tapeçaria a Lagoa do Carro, que aprendeu o ofício com sua mãe. Teresinha já sabia bordar e costurar. Tentando ajudar a solucionar um tapete que a mãe estava fazendo, teve sua história definitivamente entrelaçada nele e passou a trabalhar muitos anos com isso. Começou ainda na Iputinga (Recife) e foi trabalhar em Camaragibe, na recém montada Tapetes Casa Caiada, empresa de Maria Digna Pessoa de Queiroz. Foi então que, em busca de lugares que pudessem ter mão-de-obra interessada na confecção de tapetes, produto com as vendas em ascenção, assim como a empresa de Maria Digna, Teresinha foi a vários vilarejos e cidades, chegando em Lagoa do Carro, ainda distrito de Carpina, em 1975.

Teresinha foi, aconselhada por uma amiga, Dona Berenice, que era de Lagoa do Carro, e tinha aprendido a fazer tapete com Teresinha no sítio Penedo, em São Lourenço da Mata. Esta revelou que em Lagoa do Carro haveria muitas mulheres em situação de extrema pobreza, sem trabalho ou qualquer oportunidade. “Ela [Berenice] me apresentou a dona Madalena. Na mesma hora, dona Madalena saiu por ali nas vizinha, veio umas trinta mulheres”, segundo conta Teresinha. O boato de que havia uma mulher procurando mulheres para ensinar a fazer tapete rapidamente se espalhou. Teresinha prometeu então voltar em oito dias com os materiais para iniciar as “aulas”.

Ensinando às que já sabiam ponto-de-cruz (sendo o da tapeçaria um ponto diferente) e às que não sabiam de nada, Teresinha ensinou fazendo, e “de olho” elas foram aprendendo e repassando para as outras. Quem aprendia mais rápido ficava responsável por repassar o conhecimento pras outras. E assim começou a história de vida das mulheres de Lagoa do Carro, se entrelaçando com a da tapeçaria.

“Quando eu cheguei, tinha mais de sessenta mulher. Foi um caderno que ela comprou, um caderno de cem página pra botar o nome das mulher. Tinha duzentas e vinte mulher. Eu disse: ‘misericórdia, não posso ensinar esse pessoal todo, não. Eu quero, assim, as que já tem, assim, noção do ponto de cruz’. Mas é pior, porque elas só queria fazer o ponto de cruz, e o ponto da gente é ponto lira, porque ele só cruza em cima. Embaixo, não. Aí comecei a ensinar”, explicou Teresinha1.

Teresinha seguiu os conselhos da amiga, e seu tino para negócio, e deu às mulheres uma oportunidade. Lagoa do Carro tornou-se a sua morada por um ano. Mais tarde foi morar em Carpina, mas mesmo depois da mudança ia e vinha entre Lagoa do Carro, Carpina e Camaragibe. Depois de sair da empresa Tapetes Casa Caiada, trabalhou só mais algum tempo com tapete, hoje não trabalha mais. “Pra mim foi muito bom, sabe? Aí quando eu tô muito revoltada, eu falo assim: ‘eu fiz uma cidade e ela não me fez’, que isso aí eu sei que eu fiz”, disse Teresinha.

De acordo com T2: “Chegou essa Teresa Lira, ela era uma artesã de Casa Caiada, uma fábrica aqui em Camaragibe. Eu só sei que cada artesã procurava uma cidade que não tinha esse artesanato que é pra ela ensinar. Ela chegou aqui numa casa aqui em Lagoa do Carro, alugou um casarão e ficou, e chamou umas vizinhas do casarão, pra chamar umas meninas pra ela ensinar a fazer esse tapete. Aí ela levou uns tapetinhos assim pra mostrar as meninas. Aí rateou a cidade que era pequenininha, néra? todo mundo queria fazer alguma coisa, aí a gente fomos, nesse casarão foi meio mundo de mocinhas pra trabalhar, pra ela ensinar. Ensinar o ponto primeiro, depois ensinar como desenhar, ensinar como encher, ensinou todo, todo do tapete a nós.”

Em 1975, a história da tapeçaria em Pernambuco começou a se entrelaçar com a das mulheres de Lagoa do Carro. Mas foi em 1989, com a fundação da Associação de Tapeceiras de Lagoa do Carro – Astalc, que essa história ganhou força. No começo a Astalc, fundada por Isabel Gonçalves e outras mulheres, teve um grande desafio: reunir mulheres e homens que estivessem trabalhando com tapete para resolver a questão dos atravessadores, que, segundo as mulheres, pagavam muito pouco pelos tapetes feitos para a empresa, e esta os revendia por valores muito mais altos. Além de ser uma nova proposição na produção, comercialização e gerenciamento dos trabalhos das tapeceiras (havia homens, mas elas sempre foram/são a maioria), era uma nova maneira de empoderá-las. A Astalc é gerida até hoje por elas. As mulheres se revesam em escalas da Associação, que funciona de domingo a domingo. Elas concorrem a eleições, e os cargos administrativos e decisões são tomadas em grupo. Lá elas têm seus trabalhos expostos o ano inteiro, de sol a sol. Aprenderam através de cursos a medir/calcular/tabelar o preço dos produtos e tentam sozinhas resistir à situação de descaso institucional em que vivem, já que não recebem nenhum incentivo mensal/anual para a confecção dos tapetes, nem para manutenção, segurança e outros gastos com a Associação. Todos esses custos são arcados por elas. Produzem, além de tapetes, produtos com valores mais acessíveis como bolsas, passadeiras, capa de almofadas, pesinhos de porta, entre outros.

A procura de pessoas pelas peças da Associação é esporadica. As artesãs dividem um stand cedido pela prefeitura de Lagoa do Carro na Feira Nacional de Negócios do Artesanato – FENEART, juntamente com outros artesãos/artesanatos feitos na cidade. Elas também se juntam em grupos e compram um stand, mas nem todas conseguem fazer isto, pois o valor do stand é caro, bem como o transporte dos tapetes até a Feira.

“Eu na verdade, até uns dias, tava pensando que eu queria tanto que minha renda fosse a renda da tapeçaria, mas assim é complicado, porque pra isso eu tenho que viajar muito pras feiras, e feira é uma coisa que assim… tanto você pode ter um lucro legal, como você pode não ter nada e ter um prejuízo grande, é um risco. Então eu acabei nunca tendo coragem de transformar a tapeçaria na minha renda principal”, explicou-nos Risolange.

As mulheres que estão associadas pagam uma taxa pra custear os gastos acima citados com a Astalc. A Associação chegou a contar com mais de 200 associadas, mas hoje há cerca de 16. Existem ainda muitas mulheres que fazem tapete, mas que não estão associadas, ou mesmo as que ainda fazem para Tapetes Casa Caiada, como era feito antigamente. Muitas mulheres têm no tapete sua única fonte de renda, ou dele tiram parte do seu sustento e de suas famílias.

“As pessoas quando têm o interesse, vêm aqui pra associação, e elas já ficam. ‘Quer ficar?’ ‘quero’, ‘pronto pode ficar, viu?’ ‘Ah, mas eu não tenho tapete’ ‘Tem nada não pode ir ficando’, e aí elas vão ficando. É pago uma mensalidade, vinte reais mensal, porque como a associação nós mesmas é que mantemos, pra manutenção mesmo diária de contas, de limpeza de tudo, então é pago pela gente mesmo.”, explicou-nos novamente Risolange.

Há 13 anos a Feira do Tapete e do Artesanato em Lagoa do Carro – FETALC, outra forma de venda/exposição dos produtos, ocorre anualmente na cidade. Algumas artesãs se tornam mestras e são homenageadas. A FETALC reúne esforços para comercializar e expor os tapetes e assim manter vivo o interesse e a tradição do fazer.

Muitas mulheres foram parando de fazer ou saindo da Associação porque as vendas, de fato, diminuíram muito, ou porque não conseguiam produzir, já que pra isso precisariam custear os materiais. Conversamos com algumas mulheres e percebemos que muitas falam com nostalgia do tempo em que faziam tapete, e o único motivo do abandono foi o descrito acima.

Os tapetes são pesados e as mulheres podem desenvolver problemas de saúde (coluna, visão, alergias e outras patologias). Continuar produzindo tapete em Lagoa do Carro demanda uma resistência enorme por parte das tapeceiras e a atividade vai aos poucos sendo deixada de lado com o envelhecimento dessas mulheres. O desinteresse por parte das pessoas mais novas existe, por verem que as vendas são quase inexistentes e sazonais, ou que o trabalho não é valorizado. Por isso, partem à procura de outro meio de “ganhar a vida”, buscando “algo melhor”, “mais certo”, “com mais futuro”.

Divisões de trabalho

A tapeçaria de Lagoa do Carro, além da história de luta das mulheres que a fazem, carrega uma série de tramas. Sua confecção é feita em etapas matematicamente executadas. Esse processo também divide a função de cada tapeceira na feitura do tapete em desenhistas (marcam os contornos dos desenhos), e enchedeiras (preenchem o espaço em volta do desenho marcado/ou o fundo do desenho). Algumas mulheres exercem ambas funções, mas geralmente as que desenham não querem encher, apesar de saberem, e as que enchem não querem/sabem desenhar.

“Quando eu comecei, eu nunca me interessei em desenhar. Porque tem o desenho, né? Tem o desenho e tem o enchimento. Eu chamo enchimento, né?, que é pra encher. Eu nunca me interessei não, mesmo.”, disse-nos Neném3.

As etapas, portanto, não são divididas por uma hierarquia de poder e sim por processos de trabalho que precisam que ser feitos para obtenção do resultado, que é o tapete pronto. Ambas as partes são importantíssimas e interdependentes. As desenhistas, precisam de menos tempo, porém de muita atenção. Os desenhos são passados à tela, chamados de desenhos contados, necessitam de cálculo mesmo, o espaço e contagem dos pontos dos desenhos são feitos por elas, que também escolhem a cor de cada parte do tapete e repassam o serviço às enchedeiras, depois disso tudo já encaminhado. As desenhistas ganham mais pelo trabalho, pois, além de executarem mais rápido, são poucas que sabem fazer, e delas depende o norteamento do tapete. Geralmente as enchedeiras têm um trabalho considerado por elas mesmas como mais árduo, demandando mais paciência, tempo, ritmo, um trabalho mais “braçal”, e, como é feito mais lentamente. o pagamento pelos seus serviços é mais demorado e menor.

Etapas do tapete

A tela, teia base que sustenta os pontos de lã é vendida em metros. Alguns autores que escrevem sobre tapeçaria a chamam de talagarça, mas preferimos manter aqui o nome dado pelas tapeceiras de Lagoa do Carro. A equação que finda com os tapetes prontos começa na marcação e contagem dos pontos na tela. Como um esboço de uma pintura, as tapeceiras (desenhistas) marcam na tela o desenho, cores (amarram pedacinhos de lã na tela), e quantidade de pontos que serão posteriormente bordados.

A lã, matéria prima primordial é vendida em novelos e tem uma variedade de cores imensas: cru, lodo, musgo, caquitos, vinho, bordô, ferrugem, boreal… A escolha do colorido do tapete é feita pelas desenhistas, que estudam os degradês, efeitos que as cores produzem. Alguns tapetes são feitos sob encomenda, como no caso da Fábrica de Tapetes Casa Caiada, ou de algum cliente que solicite na Astalc. Pelo custo x benefício, é melhor comprar os novelos por quilo e em pedidos grandes ao fornecedor. Um dos bons motivos da Associação existir é poder fazer esses pedidos grandes com custo menor, em benefício das associadas.

Alguns desenhos têm sua amostra já calculada. As tapeceiras, quando veem que o tapete deu certo, tiram uma amostra e guardam como modelo pra um tapete futuro. Mudando as cores, os tamanhos, a distribuição dos desenhos na tela, as amostras são utilizadas pelas desenhistas como um trunfo calculado para outros tapetes.

“Aquilo que você inventou, que deu certo e foi vendido você tira a amostra, porque se não se for vendido eu vou ficar desarmada.”, garantiu-nos T.

Marcação na tela pronta, os desenhos contados começam a ser bordados na tela. O enchimento desses desenhos e dos fundos dos tapetes é feito na sequência. Nessa etapa o tapete passa de mão pra mão. De desenhista pra enchedeira, esses tapetes são passados e, muitas vezes, de casa em casa confeccionados. Algumas tapeceiras trabalham juntas enchendo o mesmo tapete.

“Alguns a gente cria, alguns, não todos, entendeu?, sempre a gente tem um desenho aí que a gente sempre aumenta alguma coisa, diminui, entendeu?, a gente não quer desse jeito quer de outro, aí a gente vai tentando, sabe? Se a gente acha que essa rosa noutro colorido, de outra maneira vai ficar bonito aí você… o jogo é que faz é você. Eu acho que eu gosto mais de trabalhar com tapete floral, tapete de cacho jogado assim.”, detalhou-nos L.

No começo, a tapeçaria feita em Lagoa do Carro usava o ponto arraiolo, chamado também por elas de trança, mas este hoje deixou de ser feito, já que sua confecção demoraria o dobro do tempo que os pontos atuais são feitos. Os pontos são chamados de diferentes maneiras pelas tapeceiras: “ponto lira”, “pontos-de-cruz” (não o ponto-de-cruz tradicional, mas uma variação dele), de “pontos florzinha”. São os nomes dos pontos usados por aqui. Quando uma pessoa quer aprender, geralmente começa pela carreira lisa. Pega-se um pedaço de tela e enche-se com a mesma cor até preenchê-lo. carreira lisa, pois não tem desenho.

A agulha de bordado, instrumento primordial do trabalho e companheira das artesãs em todas as etapas, é própria para bordar com lã. As agulhas são instrumentos pessoais para as mulheres, algumas as moldam do jeito que querem. Tem sua passagem mais larga e é mais espessa. Só são trocadas quando no acabamento é utilizada a agulha mais fina, na conexão entre o tapete e o tecido que cobre o avesso (tecido que fica em contato com o chão).

“Ah, foi minha agulha, eu sem aquela agulha acho que eu não faço tapete mais não, menina, eu faço nada. Aquela minha agulha é especial, eu acho que foi desde o começo que eu arrumei aquela agulha, virgem maria do céu! É um amor naquela agulha que eu tenho. Eu deixar ela numa casa pra eu ir tapete pra voltar amanhã? Deixo não. Eu saio com ela na mão mas eu não deixo no tapete. Se todo mundo disser assim: ‘o tapete vai ficar aqui e só pega amanhã’, é ruim de eu deixar!”, disse-nos Neném.

Depois de bordados os tapetes, estes vão para uma fase de acabamento, onde passam por uma colagem no avesso das peças; tem a etapa da secagem, depois o avesso é todo recoberto por tecido e é costurado à mão pelas artesãs.

São feitos em Lagoa do Carro tapetes de vários tipos: bordados com motivos de azulejaria portuguesa, também chamados de coloniais, os florais e os geométricos. Alguns desenhos de tapetes são inventados pelas tapeceiras, tirados de desenhos/formatos de cerâmica/ladrilho. Outros são inspirados e criados a partir da observação de elementos da natureza como flores, frutos, cenas bíblicas ou desenhadas por elas, e alguns, já não tão comuns, retirados de revistas de tapeçaria.

“É porque você chega aqui nessa associação e vê muito desenho repetido, né? Esse daqui eu criei, mas já tem alguém que já fez ele, fica tirando cópia. Tinha um tamburetezinho, eu sentei e fiquei estudando, sabe que dá um tapete isso aqui? Eu vou ver se consigo, aí eu peguei um pedaço de tela e uma caneta, aí, comecei pelo risco. E foi uma complicação só sei que eu…. você tem que ter cabeça, né?, e eu fiz. Eu fiz, eu fui fazendo tapete desenhando a forma que tava no meu piso, entendeu? E ficou bonito, né?”, disse-nos T.

Ainda se pode ouvir falar de tapetes lisos, ou campo liso (que são preenchidos em uma só cor), nestes, os pontos têm que ser extremamente bem executados já que “aparecem” mais, assim como nos tapetes geométricos, segundo as tapeceiras. Os nomes dos tapetes criados pelas tapeceiras são também escolhidos por elas. Muitas vezes acontece de uma delas saber quem fez tal tapete, por saber dos jeitos, cores e formas que a outra tapeceira usa.

Os pedaços de lã, retirados do novelo e colocados na agulha são geralmente de 70cm, e são chamados de perna de lã. Algumas tapeceiras sentam-se em cadeiras que têm os pés serrados para que fiquem numa altura boa pra trabalhar. Os tapetes são seguros embaixo de suas pernas. Por isso, muito desse processo de enchimento é feito fora de casa, onde o calor de Lagoa do Carro não atrapalha muito. Lembrando também é parte do cenário/processo bordar juntas o mesmo tapete. Hoje esse cenário é mais difícil de ser visto, por motivos já ditos acima, como a diminuição da venda, e por isso, na produção de grandes tapetes, as mulheres não se encontram com mesma a intensidade que se encontravam antigamente.

“Lagoa do Carro, mulher, era muita gente fazendo tapete. A gente via era os rapaz na praça, nas calçada fazendo tapete, com as mães, com as irmãs”, contou-nos novamente Neném4.

No começo, os tapetes em Lagoa do Carro eram feitos à luz do candeeiro, outro motivo de encontro fora da casa para bordar os tapetes.

O valor do tapete é calculado por metro quadrado e sua produção é paga por novelo, ou também por metro quadrado preenchido. Algumas mulheres que passavam os tapetes para as enchedeiras, pesavam o tapete para “comprovar” a quantidade de lã que foi usada no bordado do tapete.

Relatou-nos Neném que “A gente ia buscar o tapete e a linha e quando terminava o tapete a gente tinha que cortar aquele pelo que ficava por baixo pra não fazer o volume, a gente cortava, botava numa bolsinha e amarrava, porque pra quando chegasse lá ia pesar o tapete pra ver se tinha aquela quantidade de linha no tapete.

Porque tinha gente que tirava a linha, vi? Já fazia isso porque ela deve ter levado gongo de alguém, né?”.

Hoje as mulheres que fazem tapete em Lagoa do Carro são associadas à Astalc, ou enchem sem vínculo empregatício para a Fábrica de Tapetes Casa Caiada em Camaragibe, com exceção de uma5. Ou ainda enchem sob encomenda para as associadas da Astalc. Como o produto é geralmente comprado por uma classe mais abastada, não encontramos mulheres que façam tapetes e os revendam por conta própria, apenas uma tem loja de artesanato, onde também vende tapete. Dificilmente uma tapeceira tem um tapete em casa, também pelo mesmo motivo, o custo da confecção é alto e segundo algumas tapeceiras com quem conversamos sua moradia não estaria à “altura” do próprio produto com que trabalha.

“A gente tem um problema muito grande com a questão do artesanato, de continuar as pessoas produzindo, então a maioria das que aqui estão já são pessoas que já não são tão mais jovens. Pode ser que amanhã elas decidam parar, por problemas de saúde mesmo, o tapete por ser uma peça pesada ele traz também problemas de saúde, problemas na coluna, problemas de visão, problema alérgico, então você acaba desenvolvendo algumas patologias, então a gente tem esse projeto. Não só eu. Tem muitas outras mulheres que produzem mas não são da associação. A gente quer trazer pra fortalecer a Associação.

Se não fosse a Associação, essas mulheres não estavam produzindo. Em que lugares elas iriam vender?” questionou Risolange

Conversamos com mulheres que têm histórias de vida atreladas à história da Tapeçaria em Lagoa do Carro. Figuras históricas como Teresinha Lira, que ensinou e deu às mulheres uma nova oportunidade. Exemplos de mulheres que fazem as etapas do tapete como T., que cria desenhos e sabe executar todas as etapas do tapete, gosta de estudar os coloridos do tapete e é associada a Astalc. Leia, que trabalha na Tapetes Casa Caiada (em Camaragibe), e trabalha como desenhista e intérprete, assim como foi Teresinha Lira no passado, trazendo os tapetes de Casa Caiada para serem feitos em Lagoa do Carro. L., associada à ASTALC e que desenha e trabalha em parceria com Neném, que é enchedeira; e Risolange Rodrigues, que, além de tapeceira, é turismóloga na Secretaria de Cultura e Turismo e, quando da nossa conversa, presidenta da ASTALC.

1 Ver narrativa completa de Teresinha Lira.
2 Ver narrativa completa de T.
3 Ver narrativa completa de Neném.
4 Ver a narrativa completa de Neném.
5 Ver a narrativa completa de Leia.