Tacaratu

por Clara Nogueira

Habitantes 25.368
Área 1.248,5 Km²
Sertão Itaparica
453 Km de Recife
Localizada entre: Inajá, Floresta, Petrolândia e Estado da Bahia

O lugar chamado “Brejo dos Padres” para os nativos era “Tacaratu”, palavra que significa “serra de muitas pontas ou cabeças”, interpretação da paisagem do entorno do lugar margeado por serras altas. Os povos nativos das tribos Pankararus, Umaús, Vouvêa e Geriticó, todos do grupo linguístico Kariri, coabitavam a terra que hoje conhecemos como Tacaratu.

O atual município de Tacaratu possui dois distritos, sendo o distrito-sede Tacaratu e o outro, Caraibeiras. Possui noventa povoados rurais como o Sítio Olho D’Água do Bruno.

Sítio Olho D’Água do Bruno

A dez quilômetros do distrito de Caraibeiras, o povoado rural é a casa das mulheres que ainda resistem tecendo em seus teares de pau1 as redes de dormir. A região foi visitada em 1938, pela missão de Mário de Andrade2, que registrou cantigas que já falavam das redes de dormir. Gilson, morador do Sítio, e atualmente secretário de cultura de Tacaratu, nos contou a história de como surgiu a comunidade Sítio do Olho D’Água do Bruno: “Esse senhor, né? Ele era um forasteiro de fora. Aí, ele carregou uma Dona, se apaixonou por essa Dona chamada de Dona Ana Teresa, ela. Aqui na cidade próxima de Água Branca, que é em Alagoas aqui. Aí colocou ela no cavalo e saiu com ela no meio de mundo aí. Aí, eles passaram justamente por esse meio aqui, mas aqui era tudo bruto, não tinha ninguém, não morava ninguém ainda. Passaram por aqui, aí, lá em cima tinha uma fontezinha que hoje a gente chama de ‘Fonte Ruim’, aí, ele com ela no cavalo caminhando várias horas, várias horas, cansados resolveram parar um pouco pra descansar. Batendo uma sede, estavam sem água. Naquilo que estavam descansando ali se preocuparam com a sede ‘eita, e agora? o que a gente vai beber?’, aí, procura de um lado, procura de outro, vê se encontrava uma água em algum local e não conseguiram encontrar. Aí, de repente o Bruno, ele viu assim entre as pedras umas gotas pequenininhas, minúsculas, de água descendo e foi o nome que ele surgiu na hora ‘Olha, um pequeno olho D’Água ali surgindo’. Aí, ele conseguiu pegar com uma cuiazinha, né?, a água e bebeu. E ali ele começou, se arranchou por ali mesmo e por ali ele ficou e foi onde ele fez a comunidade. Foi um dos primeiros moradores e por aqui mesmo ele ficou.”

O Coco do Tebêi é uma dança começada no Sítio. A dança acontecia enquanto os moradores tapavam de barro a casa de algum vizinho que casava. As mulheres traziam água pra molhar o barro para fazer a taipa, e os casais dançavam com o ritmo, marcado pela pisada dos pés, e a Toada das cantoras. O “Tebêi” é o nome dado ao barulho que a pisada do pé faz contra o chão. Contou-nos L.3 que “Aprendi com meus pais, os mais velhos de primeiro, no caso. Quando minha mãe namorava com meu pai era nesse tempo, não tinha casa de tijolo, tinha de taipa. Os homens casava, aí armava as casa como se fosse essa casinha minha aí, aí eles tapava de vara as casa, ia pro mato tirava as varas, aí tapava a casa, aí naquela tapação que eles botavam o barro mode tapar a casa, aí eles ajuntavam muito homem e era muita mulher pra tapar casa naquele dia. Era as mulher botando água, botando água nos pote carregando dos açude e aí, por aí era uma coisa muito… eles cantando Toada, aqueles que sabia cantar Toada, meu pais mesmo era duns que cantava, e ajuntava aqueles montão de mulher e de homem aí tapava a casa e de noite arrumava os Tebêi, tinha as Feitosa que elas ficaram famosas no Tebêi aí, por aí vai, daí que depois surgiram as casa de tijolo, mas quando era casa de taipa era assim, aí de noite, minha filha, era Têbei de manhecer o dia. Hoje em dia a gente dança pro pessoal de longe vê. Pra olhar aquela tradição.”

No Olho D’Água, como o chamam, não se ouve som de tear como em Caraibeiras. Uma casa aqui e outra acolá, ligadas por estradinhas de barro, onde cada um conhece o outro. Em meio aos roçados, plantações, casas de taipa e de tijolo, os teares se movimentam cada vez menos. A produção é por encomenda, hoje em dia. E muita gente está deixando de fazer. A agricultura é a fonte de renda e da vida da maioria por aqui. A seca na região durava 6 anos, e em nossa chegada, em julho/ 2017, pudemos observar a mudança na paisagem que um pouco de chuva causou por aqui. As pessoas são muito pacatas, e muita gente prefere a calmaria do lugar ao barulho das cidades. Falou-nos L. que “Ave Maria, quando eu chego lá (em Caraibeiras) eu fico doidinha pra vim mimbora. Eu não aguento ali, ó. Por isso que eu digo ‘eu não moro ali’ já por aquilo, eu não aguento, fico doidinha lá quando eu chego na casa de uma cunhada minha, ave Maria, eu sempre fico lá pra cozinha lá, mas perto dos tear (elétrico) eu não fico um segundo, já por isso daí aquelas zoada é muito forte (do tear elétrico). E aqui (no Olho D’Água) não, o barulho é devagarzinho. A gente não faz zuada, que a gente tece com espaço, é espaçoso assim o espaço e lá é muito corrido, é a força. Por isso aquela zuada.”

Caraibeiras

Caraibeiro é como se chama aos ipês amarelos na região. Tinham tantos por ali que o nome do vilarejo se tornou Caraibeiras. O distrito de Tacaratu tem um som que guia o dia. A batida frenética dos teares elétricos não cessa. Na hora do almoço, encoraja-se a diminuir um pouco o volume, mas os teares tímidos de algumas casas já marcam o tempo da volta. O som é o que permeia a produção da rede de dormir feita por 85% de seus habitantes.

Em cada casa, calçada e rua que se passa percebe-se a presença das redes. Difícil achar uma pessoa que não trabalhe com isso. Disse-nos R.4: “Aqui não todas casa mas uma sim e uma não tem um tear pra tecer. Quem não tem mais desse tem um elétrico, e quem não tem nem elétrico nem esse manda pras pessoas tecer.” A capital da rede é a extensão do nome da cidade, mas é nesse distrito e nos Sítios que as redes se fazem, é onde o trabalho-vida se faz.

“Aqui um tece, o outro faz isso, outro dá nó de tapete, aqui não tem, se tiver algum mendigo é que vem de fora, mas aqui graças a Deus que todo mundo trabalha, quem não trabalha aqui é porque é preguiçoso. Mas aqui é um lugar que chama terra da rede. É um lugar que dá mais trabalho. Tem um povo que tem aqui e é tudo de fora, que nem Tacaratu, Tacaratu é um lugar pequeno e é bem estreitinho e aqui é um lugar grande. Aqui era pra ser a cidade e aqui já é o município, aqui era pra ter o banco e não é lá. Em Tacaratu não, o emprego de lá é prefeitura e essas coisa assim sabe? E aqui não, é só artesanato. Graças a Deus todo mundo ganha dinheiro, ninguém anda pedindo esmola.”

Caraibeiras é lugar de gente simples e honesta. São seus 7.0155 habitantes. Distante 12 km da sede do município – Tacaratu –, as compras ainda se fazem olho no olho, com dinheiro vivo. Os bancos ficam no distrito-sede Tacaratu, além da prefeitura, igreja, pousadas e serviços. Cada moradora e morador conhece o outro e não titubeiam ao indicar o caminho mais perto de se chegar a algum deles. As ruas são de paralelo, e à noite as poucas árvores viram abrigo de multidões de passarinhos. Conta-se nos dedos os casos de violência urbana que aconteceram aqui. Comenta R.6: “Bem, aqui é mais sossegado. Você mora aqui não tem muita violência aqui, e você conhece todo mundo”. É um lugar pacato que à noite vai ganhando pessoas, cadeiras na calçada, conversa boa.

Em Caraibeiras acontece semanalmente A Feira de rede de dormir, num galpão aberto ao lado da feira livre, onde são vendidos animais pra criação, frutas, verduras, utensílios para casa, e onde se come também.

Hoje as redes manuais e as feitas no tear elétrico se misturam na feira. As fábricas grandes e os teares elétricos de alguns moradores tecem a maioria da produção. Existem teares manuais em Caraibeiras, mas os de canela só tem nos Sítios. Os teares estão sendo trocados aos poucos pelos teares elétricos. É comum ver pelas ruas teares de madeira desmontados e ruínas de maquinários que foram substituídos por novos. A batida leve dos teares manuais está quase silenciando em Caraibeiras.

“Lá em Tacaratu não é todo mundo de porta fechada? E aqui não, é todo mundo com as portas abertas, porque graça a Deus aqui não tem coisa errada. Aqui você pode dormir na calçada que não acontece nada… Já em outro canto… Aqui é um lugar abençoado pra tudo. A única coisa que aqui é ruim é pra médico. Se o caba cair numa doença só Deus.

Por causa que aqui o povo só trabalha com isso, só trabalha com rede, com tapete e bolsa, é a renda da gente é esse, do artesanato, aí é por isso que chamam ‘Terra da Rede.’”

Além da Feira de rede, há lojas espalhadas por toda cidade, que vendem uma diversidade enorme de produtos. Bolsas, jogos americanos, passadeiras e cadeiras vão dividindo espaço com as redes e mantas. É destino de gente de vários lugares que compra pra si ou que revende Brasil afora. A cidade fica arrodeada de caminhões que são abastecidos nas fábricas, ou que carregam as compras em lojas maiores. As lojas menores são destinadas aos interessados em deixar a casa mais bonita e ter uma rede pra deitar.

Caraibeiras é morada de quatro das cinco mulheres que conversamos no município de Tacaratu. Não ouvimos nenhuma queixa, senão a de que o acesso a saúde e a educação superior deixa a desejar. “Aqui é um lugar abençoado pra tudo. A única coisa que aqui é ruim é pra médico. Se o caba cair numa doença só Deus.”7

Além disso, algumas acham que Caraibeiras deveria ser emancipada de Tacaratu, e, vendo com nossos olhos, percebemos que autonomia econômica a cidade possui pra isso. “Gosto [de Caraibeiras]. Adoro aqui meu lugar. Eita, nem fale, eu chorava tanto com saudade da minha família, longe de todo mundo. Não conhecia ninguém lá em São Paulo”. Conta-nos S.8, que foi morar um tempo em São Paulo, mas adora ter voltado pro seu lugar.

Tacaratu (distrito-sede)

No distrito-sede não se faz rede. Tacaratu tem o Santuário, a Igreja Nossa Senhora da Sáude e um casario colonial que a rodeia. Bares, comércios, escolas, bancos, museu e a sede da Prefeitura da cidade diversificam o uso dos casarios que se misturam às casas conjugadas, morada de gente simples.

Somente nos anos 1990, os Pankararus, povo nativo da região tiveram sua identidade e território protegidos pelo Estado, mas até hoje sentem os resquícios de décadas de lutas para ter seu território. Em janeiro, mês que se começa a Novena pra Nossa Senhora da Saúde, por tradição a várias gerações, os Pankararus abrem a Novena entrando na Igreja para a missa e dançando o Toré do lado de fora. A celebração religiosa atrai cerca de 150 mil pessoas todos os anos durante o período da Novena (janeiro e fevereiro). Os Pankararus possuem rituais como o Menino do Rancho, a Festa do Umbu, e a Dança dos Bichos, mas, devido à catequização dos povos nativos pela ação dos missionários, a maioria dos Pankararus é católico9.

Uma cachoeira no meio do Sertão, com cem metros de altura e sete quedas d’água, assim é a Cachoeira do Salobro, ponto de encontro dos moradores e de visitantes. A água tem o gosto um pouco salgado, por isso o nome Cachoeira. Para se chegar nela é preciso adentrar no distrito-sede, passando por vilas que fazem parte do território do vasto município de Tacaratu.

Caminho estreito por uma estrada de barro também se faz pra ir no Cruzeiro de Tacaratu. Lá de cima, vemos o distrito-sede e Caraibeiras. Além do vento gélido que passa sobre nós, uma paisagem exuberante nos toca e nos leva ao silêncio. O local é destino de turistas, mas principalmente de fiéis, que para pagar promessas às vezes sobem o percurso a pé. Há uma cruz (o Cruzeiro) onde estes fazem suas preces mais perto do céu. Lá, depositam seus ex-votos e acendem velas. No caminho de volta vemos também o Rio São Francisco e suas curvas sinuosas. Outro recanto de visitação é a Fonte Grande, uma bica de dois metros de altura, que é destino de vários moradores nos fins de semana.

1 Ver texto Tecelagem em Tacaratu.
2 Em 1938, o escritor Mário de Andrade, enviou uma equipe ao Nordeste e ao Norte para registrar cantos, danças e rituais que considerava ameaçados de extinção.
3 Ver narrativa completa de L.
4 Ver narrativa completa de R.
5 Fonte IBGE, 2015.
6 Idem nota 4.
7 Ver narrativa completa de C.
8 Ver narrativa completa de S.
9 Lúcia Gaspar – FUNDAJ.

Tecelagem

por Clara Nogueira

O “tear de pau”, que brota do Sítio Olho D’Água do Bruno, povoado rural de Tacaratu é feito há gerações por carpinteiros. O tempo em que começaram a fazer redes nesses teares não é certeiro como nossa experiência, com marcos e datas históricas, exige saber. Aqui as coisas são contadas sem data, o tempo é calculado por gerações com frases como “é do tempo de meu pai”, “dos mais velhos”, “do tempo dos mais antigos”. O conhecimento é passado de mãe pra filha, de vizinha pra vizinha, de geração para geração. L.1, tecelã que tece rede em tear de pau desde menina, nos contou que:

“Bom, o que minha mãe contava era que tinha uma mulher ali, aí quando ela se casou que no caso essa mulher aí era a bisavó do meu pai, quando ela casou ela foi e ela fiava. Ela tinha aqueles algodão, a gente pegava aqueles algodão que vinha lá do pé e aí elas começaram fiar fio. Aí acho que elas diziam: “bom vou inventar alguma coisa pra eu tecer uma rede” aí, se gerou dessa mulher, de tecer uma rede com esse fio. Disse que o marido dela era carpinteiro e ele inventou um tear pra ela, agora eu não sei nonde ela viu. Aí todo mundo surgiu os tear, começaram pagar ele pra ele fazer e todo mundo ficou gostando do tear. Aí, nessa época aí surgiu um vendendor vendendo fio, aí por aí vai até hoje…”.

C.2, outra tecelã nos disse: “ó, começou dos mais velho, começou dos Francilinos, desses já morreram, sabe? Aí foi as outras pessoas foram aprendendo aprendendo até que… todo mundo aprendeu. Era uma família. Aí quem começou foi eles a trabalhar nisso, sabe? Aí depois eles foram morrendo, as pessoas foram aprendendo, aí todo mundo aprendeu, aí todo mundo agora vévi disso”.

De uma família que tinha a mulher que fiava e o homem carpinteiro, foi gerada a cultura que dá a Caraibeiras, distrito de Tacaratu, o título de “Capital da Rede”.

No início, as mulheres fiavam o fio direto do algodão cru; num instrumento chamado fuso se faziam novelos para tecer. Quando vieram comprar os fios, estes eram em algodão cru, e o tingimento era feito por elas. Disse-nos Rudivânia3, que aprendeu com sua mãe, Alice, no Sítio Olho D’Água do Bruno, e que junto com sua família tece desde criança pequena.

“Era só o fio branco que comprava, aí comprava uns quilo de tinta e a gente ia fazer aquelas meada, pra poder tingir os fio. Aí a gente batia primeiro, molhava, deixava de um dia pra outro pra pode pegar aquela água, molhar bem o fio, que é difícil de molhar o algodão. Aí a gente ficava batendo numa pedra, carregava água, depois batia numa pedra, pra poder botar fogo no arguidá bem grandão, aí botava fogo, lenha, pra poder, quando tava fervendo, a gente jogava tinta e jogava meada dentro pra poder a tinta pegar bem. Era difícil que só. Hoje em dia não. Hoje em dia é mais fácil porque já vem a cor que você quer, você vai no armazém e compra. Se você quiser amarelo, vermelho, preto, branco, cru, o que você quiser, lá já tem os saco tudo separadinho. Não precisa tinta. É tanto que hoje em dia acho que nem vende mais tinta. A gente já compra tingida as cor. É bem mais fácil”,

Os instrumentos foram mudando com o passar dos anos, de acordo com a necessidade das tecelãs e da astúcia dos carpinteiros. No Sítio Olho D’Água, o “tear de pau”, nome que já fala da matéria de que é constituído, é chamado também de tear manual; difere-se, portanto, de outros teares manuais que existem em Caraibeiras, pois a sua operacionalização necessita da dança do corpo, com as mãos se joga de lá pra cá as lançadeiras recheadas de canela – que não é o pau cheiroso, e sim um pedaço de madeira, bambu, ou mesmo, em tempos, atrás de osso, enroladas pelo fio que irá tramar a rede – com os pés se movimentam os liços e espremem os fios da trama. Alguns chamam também o tear de pau de “tear de canela” ou “tearzinho de canela”, por essa especificidade. A dança é ritmada pela batida do corpo, mas esse ballet é silencioso, a certa distância nem se escuta o som, só se vê o esforço do corpo inteiro na feitura da rede. Nos teares de pau, as mulheres podem trabalhar sozinhas ou acompanhadas de outra. Quando em dupla, as mulheres jogam por entre os fios a lançadeira uma para outra. “Aí orde a rede, aí eu jogo a lançadeira com essa mão e com essa e trocando. Faz com uma e com duas (pessoas), só que eu uso com uma, que só é eu. Aí quando eu tecia mais minha mãe aí era eu e ela. Ela joga desse lado e eu jogo desse. Usa duas espremedeira aqui e duas dessas. O que fica mudando chama espremedeira”, fala L. Em teares de pau maiores, existe duas espremedeiras (espécie de pedal que move os liços e espremem os fios da trama).

Em Caraibeiras não há teares de pau como os do Sítio. Os manuais são poucos em comparação aos elétricos. A dinâmica da lançadeira é feita com a ajuda de um chicote, espécie de cordões que, quando puxados, movem a lançadeira de cá pra lá fazendo a trama. As mãos não entram na dança aqui como nos teares de pau, elas servem para marcar o ritmo de puxar o chicote pra lançadeira correr por entre os fios urdidos e bater a trama. O que preenche a lançadeira no tear manual de Caraiberas é a espula enrolada com o fio. Explicando melhor, R.4 nos diz:

“A diferença [da espula pra canela] é que pra tecer nesses tear [tear manual de Caraibeiras] não dá pra ser com a canela, tem que ser com a espula. Porque com a canela você tá jogando com a mão e aqui você tá colocando com chicote. Aí a diferença é essa. E a canela o fio quando ela enche ele corre no meio e a espula ela vai sair toda pra frente né? tem diferença. A espula ela é cheia reta e ela tem o calculozinho nela, você viu lá? Cê enche ela dos lado aí vai crescendo ela pra cima. A espula tem que ser reta”.

Como o tear é um instrumento grande, para proteger do sol (e de chuva quando vem) as tecelãs fazem uma estrutura para cobri-lo com palha, telha canal. No Sítio, esses teares manuais se diferem também pelo tamanho, eles fazem uma rede um pouco menor do que os da cidade, mas ninguém aqui contesta o pano grosso feito urdido e tramado com muitos fios. A batida que tece a trama é uma só, com mais fios do que os tecidos em teares elétricos, onde se pode escolher a grossura dos panos, com isso a qualidade. Explica R:

“Em tear elétrico, se você quer um pano de rede melhor você faz melhor, se você quiser ruim você faz ruim e aqui [no tear manual] só dá um pano só. Agora lá dá vários tipos… Mais batido e mais fino no elétrico. Já aqui não, aqui sai a mesma pancada. Que lá eles trocam uma pecinha do tear elétrico aí já dá outro pano”

L. nos falou sobre a preferência dos clientes e da diferença entre as redes feitas em teares manuais e os elétricos:

“Os compradores sempre falam que [a rede feita em tear manual] é melhor mesmo, ele prefire mais por que a nossa que nós faz é mais melhor. Aqui tem gente mesmo que encomenda a rede pra mim pra eu tecer pra casa, que não querem delas [das máquinas] que é muito mal feita. Nós tapa rede aqui de quatro pé, de lá é de dois. Lá eu não sei como é que sai aquelas rede lá porque o pano é bem mole e o tecido a gente vê do urdir a gente pensa que é de dois fio. Aí a gente pensa que eu não sei como é que tece com esses fio singelo. Não sei entender aquilo não, sei que pra tapar é com dois fio lá, já aqui nóis é de quatro, quatro perna singela.”

Etapas e divisão de trabalho

Quem deita numa rede pra descansar não imagina o trabalho necessário pra fazê-la. A rede é feita por etapas, é muito tempo de trabalho, criação, escolha de cores, pra urdir, pra tramar. O pano da rede pode ser feito em teares manuais ou em elétricos, mas o restante das etapas das redes feitas em Caraibeiras ou no Sítio é manual. Ainda não inventaram máquinas que suprissem a feitura do punho, do cadilho, do prifilo, e da varanda. Um pano por si só não se sustenta se não for o trabalho manual de cada pessoa envolvida nesse processo.

Fazer cordão

No Sítio Olho D’Água do Bruno e em Caraibeiras, ainda se faz de forma manual o cordão que sustentará a rede e fará o punho (onde a rede encaixa no suporte de parede).

“O cordão que a gente faz de acolá até a casa da minha tia aqui embaixo. Aí é subindo e descendo, subindo e descendo um fica lá em cima acochando o cordão, meu marido fica lá e eu fico cá, aí ela ele cocha, cocha, cocha, quando tá acochadinho tem que juntar três pernas. A gente vai e junta quando ajunta é que forma o cordão, pra empunhar a rede.”

Como o cordão já é vendido pronto em lojas, essa feitura é realizada por poucas pessoas. Aqui a procura ainda é grande, pois quem faz o punho há mais tempo garante que o cordão manual é melhor, mais forte. No Sítio, esse enrocamento dos fios que fará o cordão é feito sem ajuda de máquina, se torce o fio à mão. Já em Caraibeiras se faz semi-manualmente, com ajuda de uma engenhoca, uma peça que ligada a um motor (de máquina de costura) torce o fio. Nessa etapa da feitura do cordão são vistos homens ou mulheres trabalhando. Os fios são esticados a longas distâncias e são sustentados em cima de paus, gravetos. Junta-se um fio e torcendo-os se faz o cordão. É um trabalho que requer muito esforço, porque, além do vai-e-vem a longas distâncias para esticar os fios, é preciso torcê-los. Também são feitos novelos para os fios de tecer rede:

“Bem, começa a fazer a rede enrocando esse fio, ele vem de uma perninha só e você vai dobra ele em duas e você já tá começando já”.

Conta-nos R., que faz rede num tear manual em Caraibeiras, mas aprendeu no de canela no Sítio.

“O começo é isso aí, bubino e eu já estou urdindo. Eu começo daí. Depois de urdir você vai encher a espula, né? E vai começar a fazer o pano da rede. Que no caso é as canela, né? Você vai encher as canelas e botar na lançadeira e começa a fazer a rede”.

Encher as canelas ou espulas

Para tramar a rede, primeiro se enche as canelas (tear de pau do Sítio) ou as espulas (tear manual de Caraibeiras). Elas ficam sendo trocadas durante a trama. Funcionam como novelos de linha. Para encher esses novelos que ficaram dentro da lançadeira se usa uma roda de bicicleta, que girando move a espula ou canela onde os fios se enrolam. Nas fábricas existem máquinas que enrolam os fios automaticamente nas espulas.

Urdir e tramar

O processo de urdir a rede começa com a definição das cores e tamanho das redes. As mulheres vão e voltam fazendo a estrutura principal da tecelagem, o urdume. Após esse vai e volta, por diversas vezes, é hora de usar o corpo para começar a trama. Como dito acima, a trama no tear de canela precisa das mãos para jogar a lançadeira por entre os fios do urdume e dos pés, nas espremedeiras para trocar os liços. Essa dança rítmica, perfeita, faz surgir o tecido da rede. Já no tear manual da espula a puxada do chicote move a lançadeira e a troca de liços é feita pelos pés. Nos teares elétricos, a máquina faz o urdume e movimenta a lançadeira. Na máquina se enche um rolo e se faz o urdume automaticamente. “Esse da máquina é elétrico, uma urdideira elétrica, aí, ele quando secam rolo ele vai e bota os fios aí vai enchendo, é elétrico”. Explica-nos C.

A mulher tece no tear de pau (ou canela) e manual (de espula). Os homens são maioria nas fábricas operando as máquinas, em Caraibeiras. A divisão sexista do trabalho é evidente. As mulheres que trabalham nas fábricas costuram em máquinas de costura os produtos (bolsa, tapetinhos, passadeiras, dentre outros). Algumas máquinas precisam de gente para ir trocando as espulas das lançadeiras. Existem máquinas completamente autônomas que fazem esse processo de troca de espula. E lá pra urdir lá tem umas roca… uns negócio lá que enche o rolo, já não é urdindo que nem nós. Explica-nos L, também, que a força usada pra tecer nos teares elétricos é da energia elétrica:

“É assim porque esses menino homem eles só aprenderam quando abriram a tecelagem em Caraibeiras muitos foram ensinando uns aos outros, mas aqui no tear manual magina, eles vão urdir? Nós urdindo ali no tear é diferente como o de Caraibeira. Eles não querem aprender. Porque nesse daqui vai subir na espremedeira e joga a lançadeira eles não querem. Já o de Caraibeira, nos de Caraibeira eles só ficam aqui [parados], o tear tá tecendo o negócio lá é a força é energia. Eles só ficam aqui prestando a atenção quando acabar a espula pra trocar.

O de lá é mais fácil, imagina, mulher, se um homem vai tecer a rede que nós tece? Tece não! [Lá em Caraibeiras] só é tudo homem. As mulher ou fazendo as outras coisas, porque tipo assim, elas fica amarrando tapete, amarrando rede, passando o cadil. Elas pegam essa profissão aí, já os home é que vão tecer [nas máquinas].”

São raras exceções em que homens tecem no tear manual e que mulheres operam as máquinas da casa. O trabalho manual é majoritariamente feito pelas mulheres, inclusive nos acabamentos que farão do pano uma rede.

Passar o Cadilho

O “tear de cadilho”, “tearzinho” ou “mamucado” (como se chama aqueles dos Sítios em que ainda não havia o pente de ferro), são hoje em dia também feitos por carpinteiros. São teares que fixam e unem com uma trama os cordões que sustentam a rede. Isso ajuda a distribuir o peso da rede igualmente nos cordões, fazendo-a mais seguras. Esses teares também sofreram modificações com o passar do tempo. Antes eram todo de madeira, e o instrumento era menor. Hoje eles são maiores, feitos em serrarias por carpinteiros, têm um pente de ferro por onde se passam os fios. “Nesse tempo os cadio era um frangerinho bem miudinho, a pessoa sentava no chão e passava os cadio. A pessoa passava uma duas no dia. Aí foi numa de inventar esses tear nas serraria”, disse-nos C. Os teares de cadilho que vemos hoje são capazes de passar cerca de trinta redes no dia. Lembrando que o Cadilho se faz de um lado e de outro da rede.

Empunhar

O empunhador, onde se faz o punho da rede (parte da rede que a encaixa no suporte de rede) era fixado no chão. Com uma distância certa, colocava-se dois paus onde se fazia o punho. Hoje o instrumento é uma estrutura da altura de uma cadeira. Antes o punho se fazia de cócoras, e hoje se faz sentada. A distância entre um pau (chamado também de fuso) e outro, o que garante o tamanho do punho, é definido por “casinhas”, que são furos nessas estruturas, onde os fusos se encaixam.

Prifilo

“Prefilar” – Para a rede ficar mais segura é feito um arremate no pano da rede com agulha e fio. Este arremate reforça o pano que vai receber os cordões que sustentam a rede e evita que o pano se desmanche, ou rasgue.

Varanda

A varanda é o acabamento final da rede. Existem muitos tipos de pontos e tipos de varanda. Quando a rede é feita no Sítio, é comum ver as redes sem essas varandas mais rebuscadas. Nelas são colocadas “franjas”, pedaços de fio curto ao longo das laterais das redes. Existem as chamadas tradicionais que são feitas com nós formando uma espécie de losango, semelhante às redes de pesca. As varandas mais rebuscadas são as que os pontos se originam da técnica do macramê e das experimentações das mulheres, que dão para suas criações nomes como “escama”, “florzinhas”, “rabo de arraia”, “casinha de abelha”, como S.5, que faz varanda em Caraibeiras: “Eu, assim, eu boto a linha aí digo: ‘eita, hoje eu vou fazer uma diferente’, aí vou fazendo, vou fazendo, peço a alguma pessoa pra olhar pra dizer se ficou bom. Aí as pessoa me admira, aí eu continuo. Se disser que não aprovou, aí eu vou e desmancho e faço. E vou criando. Hoje mesmo eu já inventei essa que eu tava fazendo.” Para registrar uma varanda que ficou bonita com algum ponto inventado por ela, S. diz que ou “guarda na cabeça” ou tira foto pra lembrar depois.

A Feira livre acontece semanalmente às sextas-feiras. As fábricas de grande porte e suas lojas, e os estabelecimentos pequenos locais são pontos onde as redes são comercializadas, além de outros produtos. Caraibeiras é o centro deste comércio. As redes manuais que são feitas no Sítio e em Caraibeiras se misturam na feira com as feitas nos teares elétricos que alguns moradores possuem. Muitos compradores não percebem essa diferença. Os preços que as assemelham.

As redes manuais dos Sítios são feitas sob encomenda e poucos ainda fazem para vender na feira. Antes, vinham compradores à porta das casas das mulheres, e a elas encomendavam redes, depois as vendiam e traziam dinheiro, pedindo mais. Essa forma de se comercializar já quase não existe. Contou-nos L.:

“De primeiro tinha tanto comprador, agora só tem uma mulher que vende ali e um rapaz de Caraibeira. Nesse tempo eles vinha comprar aqui [no Sítio]. Às vezes quando me viam pelos canto encomendava, dizia ‘olhe, eu quero tantas rede’, aí a gente já tecia sabendo.

Quando minha mãe era viva, a gente tecia, tinha cinco [compradores] aqui que a gente só era entregar rede, trocar rede, dava dinheiro e ele viajava pra fora com as rede, já morreram tudo, quer dizer, três, dois [compradores] ainda vive mas não trabalha mais com rede não. Hoje tá ruim de vender. Eu só teço rede [não faz tapete]”.

Os teares elétricos não são produzidos em Caraibeiras. Para concorrerem com a produção das fábricas, os moradores substituem os teares manuais pelos elétricos. As famílias investem na confecção de redes e, aos poucos, vão trocando e aumentando a quantidade de teares. Nos quintais das casas ou em galpões alugados, os teares elétricos são moradores da cidade. Nos diz C.:

“Essas máquina vêm de fora e a gente compra aqui. Aí, ele [o marido] foi trabalhando, aí Deus ajudou que ele comprou a primeira máquina, aí, foi vendendo as redes, tecendo as redes, tapetes, aí depois comprou outra  e hoje graças a Deus nós tem… deixa eu ver, 5 tear, 5 máquina. Aí… deu tudo certo”

C. e o marido tinham teares manuais, mas estes não existem mais. Estão agora desmontados no quintal. C. nos explica a causa da troca:

“Eu nesse tempo eu fazia mas pouca, que era nesses tear de pau, que é duas urdindo, você já viu? Se você for pos sítio você ainda vai ver, é um que é urdindo, é duas pessoas. E é quatro espremedeira.

Aí pra tecer uma rede demora tem gente que tece uma rede no dia, duas rede no dia, porque dá trabalho, ainda vai encher canela, aí é duas que é com uma lançadeira, aí nesse tempo eu teci mas era pouquinho. Por isso que eu lhe digo, porque era pouquinho e agora não. No elétrico é dá mais produção. Aí por isso que o povo só quer mais tear elétrico.”

Os moradores que fazem o pano da rede no tear elétrico também terceirizam o serviço dos acabamentos. Alguns têm o tear de cadilho e só terceirizam o prifilo, o punho e a varanda; outros, só a varanda. Depende muito. Ao final, o valor que lucram com a venda da rede após esses processos todos não convém, e C., mesmo com o tear elétrico em casa, trabalhando de sol a sol, nos confessou que:

“Mulher, eu acho que é pouco [o lucro], porque um quilo de fio a 9,50, aí ó a gente vai, que aqui o pessoal não compra por quilo, só que é assim um saco com seis bobino, aí pesa, sabe?, aí é um quilo só é 9,50. Só que a gente tece a rede, a gente faz a varanda, a varanda gasta muito fio, faz cordão, também com muito fio aí e a pessoa ainda ainda não dá venção, sabe?, eu pago a minha menina pra prifilar que é esse negócio aí, né?, aí eu acho que só vai pouca coisa pra gente. É porque a gente não quer ficar parado, num sabe? Não gosta de ficar parado, mas num é porque o serviço da gente é esse a gente tem o costume de trabalhar nesse serviço. Mas não dá tanto lucro assim não.

Tem o fio da rede, aí a pessoa ainda paga energia, pra tecer as redes, né?, [a conta de energia] vem alta. Vem cem, cento e cinquenta reais, e é assim. Aqui falta [energia]. Qualquer chuvinha aqui chover em qualquer boniteza já falta.”

Sueli, que encomenda as redes no sítio e faz todo o acabamento, comenta do lucro:

“Me ajuda a pagar as coisas da minhas filhas, a compra as coisas pra eu também, mas o lucro é muito pouco, mas aqui todo mundo véve disso, né? se eu não fizer a rede, não vou fazer o que, nada, que não tem o que fazer aqui mesmo. Todo mundo faz, negócio de rede. Sempre a mesma coisa, sempre, não tem valor, nem quanto mais ou menos, não.

As fábricas ficou melhor, facilitou muito mais, porque o quanto você fazia uma rede, hoje no tear elétrico hoje ela faz vinte e cinco, trinta rede no tear elétrico, e é quase a mesma coisa. O que muda é que, no manual, a gente aproveitava todo o restinho de fio. No tear elétrico não, no tear elétrico ela prefire muito fio, e não aproveita o restinho do fio de jeito nenhum.

Somente as fases do acabamento que descrevemos acima são feitas manualmente: o cordão (em Caraibeiras é semi-manual) o prifilo, o punho, o cadilho e a varanda são terceirizados. Esses serviços mantém muitas pessoas em Caraibeiras, que não têm teares elétricos para produzir o pano de rede. Conta-nos S., que prifila, passa o cadilho e faz a varanda:

“Quando eu não tô fazendo varanda, tô prefilando, tô passando cadil, de tudo eu faço um pouquinho. Aí nos finais de semana eu lavo roupa, fico em casa, a minha menina me ajuda em casa, no meus afazeres, levo as menina na escola, as mais pequena.

É, o punho é pra segurar a parede, pra poder botar na parede, tem que ter o punho, e o punho é manual, tem que ter essa coisa de madeira [o empunhador] e o cordão também é manual.

É, mas é mais fraco o [cordão] da fábrica mesmo. Esse aqui, o manual, é melhor. Ele fica mais torcido, e fica melhor do que da máquina.

É, o cadil é todo manual, por causa de a gente torce a rede, amarra e torce, aí tem que passar o cadil, aí tem que passar aquele negócio lá e depois fazer o punho.”

Conversamos com mulheres que têm histórias de vida atreladas à história da Tecelagem em Tacaratu. Rudivânia aprendeu com sua mãe ainda menina no Sítio Olho D’Água do Bruno. Sua família trabalha com isso e hoje ela mora em Caraibeiras. L. é agricultora e sabe tecer desde menina, aprendeu também com a mãe no Sítio, onde vive até hoje. C., que também aprendeu criança, se mudou para Caraibeiras e tem com seu marido uma loja. Tem uma terrinha onde planta e colhe junto com sua família. Não faz mais no tear manual, e passa cadilho. S. sabe fazer tudo na rede, aprendeu menina também, e, como as outras, é agricultora. Suas varandas chamam atenção. R. é uma das poucas mulheres que tem tear manual em Caraibeiras. Seu tear tem a espula que o difere dos teares do Sítio. Faz o pano da rede e encomenda as varandas. Tem um sítio perto de Caraibeiras e fica cá e lá, plantando e tecendo.

1 Ver narrativa completa de L.
2 Ver narrativa completa de C.
3 Ver narrativa completa de Rudivânia.
4 Ver narrativa completa de R.
5 Ver narrativa completa de S.